Resenha: A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO UM

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Por Henry Garrit

(Atenção: Contém ironia e spoilers de histórias publicadas nos anos 80.)

Antes de Watchmen…

Watchmen? Alan Moore estaria amaldiçoado a sempre ser relacionado com esta que provavelmente é a maior obra dos quadrinhos?  Verdade seja dita, ele está longe de ser “apenas” o autor de Watchmen. Um dos poucos roteiristas de quadrinhos a quem ouso direcionar o adjetivo de “genial” (e não me importo a que conclusão os grandes “filósofos nerds” em seus infindáveis debates sobre o tema chegaram). Vamos adiante.

É estranho começar este texto falando sobre maldições. Além de um escritor genial, Moore é também um mago (se ele diz, quem sou eu pra discordar?) e dadas as circunstâncias abruptas com que ele rompeu relações com as grandes editoras de quadrinhos, passou a renegar seus próprios trabalhos e até a amaldiçoar aqueles que ousam dar continuidade ao trabalho por ele iniciado. Levando essa lógica ao pé da letra, se você é um admirador ferrenho de Alan Moore enquanto ser humano, a recomendação é não ler NADA do que ele tenha produzido para a Marvel, DC e a “American Best Comics” posteriormente adquirida pela Wildstorm, posteriormente adquirida pela DC Comics, posteriormente anexada ao selo Vertigo (longa história) ou mesmo seu trabalho em Miracleman, posteriormente adquirido pela Marvel Comics, que posteriormente o relançou como Marvelman (história mais longa ainda).

Mas se você, apesar de simpatizar com o barbudão, é de fato um fã de sua OBRA, então é claro que enfrentará o medo de suas maldições e lerá todos esses quadrinhos, até mesmo a famigerada minissérie “Antes de Watchmen”, ainda que por sua conta e risco, uma vez que a obra tem pontos altos, médios e desnecessários.

No entanto, é obvio que o que o atraiu até aqui foi o Monstro do Pântano, título de terror escrito por Moore entre 1983 e 1987, com arte sensacional de Stephen Bissette e John  Totleben (entre outros); Embora datado em alguns pontos, ainda assustadoramente atual em outros como em todo bom clássico.  Atemporal.

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A Panini Comics publicou no Brasil toda a fase de Moore no título em seis volumes encadernados. Falemos agora do Livro um.

Dando sequencia imediata aos eventos das histórias do personagem narradas por seus criadores Len Wein e Bernie Wrightson (cujas resenhas podem ser lidas AQUI e AQUI), Moore não se poupa do trocadilho ao nomear sua estreia com o título “Pontas Soltas”, onde fecha toda as pendências deixadas pelos autores anteriores, preparando o terreno para sua própria reinvenção do personagem. Literalmente.

Logo de cara somos surpreendidos com a revelação feita através de uma autopsia no corpo do Monstro do Pântano realizada pelo doutor Jason Woodrue, vulgo “Homem Florônico”, de que a criatura não é Alec Holland transformado pela sua fórmula biorrestauradora, mas sim um ser vegetal que absorveu sua lembranças e acreditava ser Alec Holland. (Em resenhas futuras aprofundaremos o envolvimento do Verde e do Parlamento das Árvores neste evento). O que hoje pode parecer “lugar comum” para alguns, foi uma revelação estarrecedora que pegou a maioria dos leitores com as calças curtas e já deu o tom que a revista teria dali em diante, ganhando um termo que viria a ser usado nas capas de edições futuras: “Terror Sofisticado”.

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Obvio que o Monstro surtou ao saber que nunca fora um homem, apenas um monte de lodo, folhas e raízes ambulantes que achava ter tido uma vida humana antes do acidente, o que o perturbou a ponto de deixá-lo muito violento (ainda que, como demonstraria no futuro, não fosse adepto a assassinatos). Embora o gênero da revista fosse terror, o Monstro do Pântano em si (quase) nunca foi uma ameaça à humanidade, ao contrário, seu caráter humano, ainda que “falso”, sempre falou mais alto, fazendo dele alguém altruísta, ainda que não tivesse nenhum “selo de aprovação de super-heroico”, ele apenas buscava autoconhecimento, paz de espírito e até mesmo amor. Mas as coisas se complicaram um pouco mais que isso.

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O selo adulto Vertigo ainda não havia sido criado nessa época, muito embora fosse claro que depois do que Alan Moore fez era preciso separar seu universo sombrio do colorido mundo dos super-heróis da DC Comics. Mas não antes da participação da Liga da Justiça, que percebeu a ameaça do Homem Florônico, embora sem ter muito o que fazer diante da possibilidade do genocídio de um vilarejo, o caso teve de ser resolvido pelo próprio Monstro do Pântano.

As coisas começam a tomar um novo rumo com a presença constante de Abigail Cable na vida do Monstro e suas próprias experiências com o sobrenatural. Minha história preferida desse encadernado é “O Sono da Razão…”, referenciando o quadro de Goya “El Sueno de la razon produce Monstruos”, com a participação de Jason Blood, vulgo Etrigan, ou o Demônio, personagem criado por Jack Kirby, onde Moore explora o terror psicológico e gera uma tensão genuína em seu texto (feito notável para uma história em quadrinhos), onde temos um vislumbre do “inferno pessoal” de alguns coadjuvantes (inclusive crianças), que torna tudo ainda mais perturbador. O que temos não é apenas um amontoado de criaturas infernais horrendas prestes a atacar suas vítimas, mas todo um pano de fundo criando uma atmosfera capaz de tornar a história realmente assustadora. (E muito, MUITO disso graças a arte fenomenal de Stephen Bissette, John Totleben, Dan Day e Rick Veitch).

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“O sonho da razão produz monstros” é uma obra clássica de Goya. É uma das imagens mais famosas e estudadas do Iluminismo na Espanha.

Não é o objetivo desta resenha detalhar a complexidade estrutural da narrativa tecida por Moore, mas atestar através da opinião deste que voz escreve o sucesso com o qual ele atinge seus objetivos, tomando o leitor para si em histórias sempre muito envolventes que conseguem a façanha de não decair em qualidade a cada novo número.

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Arte de Steve Bissette

Recomendo a obra não só para apreciadores de uma boa leitura como também para criadores, pois é uma verdadeira aula de como uma excelente história em quadrinhos deve ser.

Então… A gente se vê na resenha do próximo volume!

Alan Moore, por favor, não me amaldiçoe!

#salvemaamazonia

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