Resenha: SALTO

Por Henry Garrit

Imagine uma sociedade formada por pessoas feitas de fogo!

Eles viviam na cidade de Edos, mas após uma terrível chuva, tiveram que se abrigar em cavernas subterrâneas, onde fundaram uma nova cidade chamada de Intos. E é lá que a nossa aventura acontece.

SALTO conta a história de , um ser de fogo diferente por ser azul, mas essa não é a característica que faz dele especial e sim seu jeito curioso e questionador que o faz pensar fora dos parâmetros estabelecidos.

Intos tem todas as estruturas e mecanismos que uma cidade humana teria, onde as pessoas têm uma rotina de tarefas e obrigações, precisam trabalhar duro em seus empregos, e podemos observar uma clara divisão de classes, diferenças raciais (nem todas as pessoas de fogo tem a mesma cor, a exemplo do próprio Nü que é azul), autoritarismo por parte dos governantes, abusos das forças policiais… Ou seja… Uma tremenda crítica a nossa realidade, onde o autor nos conduz de modo envolvente pela história, mostrando-nos os detalhes do cotidiano de alguns personagens com seus próprios dramas, desejos e frustrações.

Construída nessa alegoria, SALTO poderia facilmente ser transportada para o nosso cotidiano se encaramos a cidade subterrânea de Intos como uma grande metáfora a certas “zonas de conforto” onde nos colocamos, e por motivos diversos, mesmo cientes de tantas arbitrariedades, fechamos os olhos e nos permitimos ficar estagnados, algumas vezes até o fim da vida.

Mas a história é otimista e fala justamente sobre um despertar, uma quebra de paradigmas que faz com que o personagem, e por consequência seus amigos, deem esse passo em direção a verdades não tão bonitinhas mas certamente muito mais libertadoras, apesar dos esforços contrários dos poderosos em esconder esses segredos a todo custo, o que coloca Nü em meio a uma conspiração que pode mudar para sempre os rumos de seu povo ao mesmo tempo em que coloca sua vida em risco.

Sua jornada é repleta de perigos e descobertas surpreendentes, onde seu caminho se cruza com outros personagens com suas próprias questões. Tanto que um deles, SILAS, ganhou sua história solo, sobre a qual falaremos numa próxima resenha.

O leitor segue o protagonista em suas descobertas, ansioso para que os segredos venham à tona, e a cada nova etapa, vamos entendendo as engrenagens que movem o sistema de Intos, até chegarmos a um momento crucial onde ele se vê diante do dilema sobre ser ou não possível convencer as pessoas a sair de seus mundos de mentira ou aceitar que estão mais felizes dentro da “Matrix”…

Construído no melhor estilo dos álbuns europeus de quadrinhos, “Salto” não está livre de alguns tropeços em seu percurso, como citações desnecessárias de expressões em inglês e algumas atitudes sem sentido de certos personagens durante a trama, mas nada que tire o brilho ou atrapalhe a diversão da história quando ativamos o modo “lúdico” do nosso cérebro (afinal é uma história sobre pessoas de fogo, não é?)

 

Como um todo, a obra cativa desde a primeira página com seus surpreendentemente humanizados seres flamejantes, sua narrativa fluída, os belos cenários e as cores deslumbrantes.

Trata-se de uma aventura steampunk que também pode ser encarada como uma fábula moderna por representar questões atemporais presentes em qualquer sociedade, seja ela formada por pessoas de fogo ou de carne e osso.

O roteiro e arte são de Rapha Pinheiro, e a produção se deu através de uma campanha no Catarse, posteriormente publicada pela Editora Avec.

Salto pode ser adquirido pelo site da Editora Guará.

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