Resenha: Bendita Cura

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Por Henry Garrit

Acácio é um menino normal, nascido em uma tradicional família brasileira. Porém aos olhos de seus pais e da sociedade à sua volta,  Acácio não é normal. Ele gosta de brincar com bonecas, ajuda a mãe nas tarefas de casa e não se dá muito bem com os outros meninos da sua idade que sempre acabam implicando com ele por conta do seu jeito de ser. É então que a família, a igreja e a escola decidem que Acácio precisa ser “curado” e a partir daí, sua vida se torna um verdadeiro inferno.

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Bendita Cura do quadrinhista Mário César conta a história de milhares de homossexuais que não tem a sorte de ser acolhidos pela sua família e respeitados pela sociedade por serem quem são. “Sorte”? É estranho usar essa palavra quando temos a noção de que esse deveria ser um direito básico, porém, em pleno 2020, as pessoas ainda não sabem lidar com a homossexualidade. As igrejas condenam e os políticos a usam como plataforma, alimentando um eleitorado preconceituoso, prometendo livrá-los de problemas inexistentes, inimigos invisíveis enquanto oferecem curas milagrosas para o que não precisa ser curado.

Em meio a avanços e retrocessos, a história de Acácio poderia ter sido contada nos tempos atuais, com alguns ajustes e talvez um pouco menos de ignorância (ou não), mas com os resultados igualmente dolorosos dos efeitos da rejeição sobre um ser humano que é forçado a se enquadrar num papel que não é o seu apenas para contentar um ambiente social que não faz ideia de que não se escolhe ser quem é, apenas se é.

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Acácio passa por verdadeiras sessões de tortura física e psicológica e tem sua identidade deformada, questiona sua própria essência a ponto de se perder de si mesmo. É impossível não solidarizar com o menino sendo constantemente tolhido e forçado a duvidar de si mesmo. Quanto prejuízo poderia ser evitado, quanto estrago emocional e danos físicos desnecessários se as pessoas se colocassem no lugar do outro e simplesmente percebessem que desde que não se faça mal a ninguém, que diferença faz a cor da roupa ou com quem as pessoas se relacionam?

Como bem disse o ativista LGBT Alexander Leon que vive em Sidney na Austrália em seu twitter: “Pessoas LGBTs não crescem sendo elas mesmas. Crescem sacrificando e limitando suas espontaneidades pra evitar humilhações e preconceitos. Nosso maior desafio da vida adulta é perceber quais partes de nós são o que somos de verdade e quais inventamos para nos proteger do mundo.”

Esse primeiro volume nos deixa com um gosto amargo ao apresentar tantos abusos, mas também acende uma possibilidade de esperança, a qual pode vir a se concretizar no segundo volume, sobre o qual falaremos numa próxima resenha.

Dado o recado sobre essa triste realidade que persiste em nossa sociedade e precisa ser combatida diariamente, o texto e a arte do autor prendem nossa atenção com seus ótimos desenhos e os diálogos precisos dos personagens. As cores são um espetáculo à parte; Ele alterna o azul e o rosa e brinca com essa composição, às vezes misturando-as ou colocando-as em personagens de modo a usá-las como recurso narrativo.

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Uma HQ com uma história forte que não pode deixar de ser contada e repetida até que um dia cheguemos a um mundo onde ela será apenas uma boa ficção e nunca mais um trágico retrato da nossa realidade.

Bendita Cura pode ser adquirido no site do autor.

 

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