Resenha: “WILDCATS – DE VOLTA PARA CASA” de Alan Moore!

Por Henry Garrit

QUEM SÃO OS WILDC.A.T.S?

A guerra entre os planetas KHERA, lar dos Kheranos e DAEMON, mundo dos demonitas chegou à Terra há séculos, e embora agindo de forma discreta, a coisa tomou nova proporção quando esses últimos tentaram substituir o presidente dos Estados Unidos por um de seus transmorfos, sendo impedidos por Kheranos radicados e humanos híbridos, descendentes destes que estiveram no planeta tempos atrás. Assim DEVOTA, LORDE EMP, ESPARTANO, MARRETA, VODU, WARBLADE e GRIFTER (também traduzido no Brasil como “Bandoleiro”) constituíram a equipe criada por Jim Lee e Brandon Choi na Image Comics sob o selo da Wildstorm após uma passagem de sucesso de Lee pela Marvel. Esta fase de Alan Moore no título se passa antes do selo ser adquirido pela DC, que atualmente incorporou os personagens ao seu próprio universo de personagens. Os dois volumes encadernados da aclamada fase de Alan Moore nos Wildcats foram publicados no Brasil pela Editora Pixel.

Wildcats originais no traço de seu cocriador Jim Lee.

Spoilers à frente!

Logo após a saga conhecida como “Tempestade de Fogo” que uniu os personagens da Wildstorm em um grande crossover, os Wildcats foram dados como mortos após a explosão de sua nave, sacrificando-se para que a Terra fosse poupada.  Como forma de honrar a equipe original e continuar seu legado, Sr. Majestic e Savant decidem reunir um novo grupo, que contaria com Alerta Vermelho, irmão de Cole Cash, o Grifter (Ele não estava na nave que vitimou seus companheiros, mas se afastou da vida de heroísmo); Ladytron, uma ciborgue emocionalmente disfuncional, com graves problemas de controle de raiva e Tao, um gênio estrategista criado em laboratório.

Com uma atitude mais agressiva, e burlando muitos dos “códigos não escritos” dos super-heróis tradicionais, essa nova equipe se mostrou proativa, indo atrás de criminosos conhecidos antes que cometessem algum crime, o que aumentou ainda mais o ódio contra eles e os deixou na mira da maioria dos vilões que forjaram uma aliança para destruí-los.

O que eles não sabiam é que os Wildcats originais estavam vivos, uma vez que a “explosão” de sua nave foi na verdade uma dobra espacial que os levou de volta ao planeta natal de Lorde Emp e Devota, Khera.

E assim Alan Moore começa a alternar as histórias das duas equipes, alheias a existência uma da outra.

Os “Novos” Wildcats!

A chegada em Khera, agora vista como uma verdadeira utopia com arquiteturas magníficas e uma sociedade tecnologicamente avançada, reserva grandes surpresas, uma vez que Emp e Devota não tinham certeza de como seriam recebidos depois de séculos presos na Terra lutando na guerra contra os demonitas.

Emp, de posse de um disco com memória de Hadrian é capaz de recuperar seu companheiro baixando-a em um novo corpo Espartano mais evoluído que o anterior.

Lorde Emp e Lady Zannah (o nome kherano de Devota) são rapidamente tratados como aristocratas de sangue azul e os demais Wildcats são considerados seus “lacaios”. Uma das primeiras atitudes dos kheranos é submeter cada um deles a um sensor de DNA imigratório para assim classifica-los e separá-los em suas devidas castas. Lacuna logo é identificada sem nenhum traço kherano, sendo ela uma humana fundida com uma entidade transumana, o que a levou a ser classificada como classe cinco. Como é explicado por um dos funcionários do departamento, eles serão acomodados conforme suas classes de dois a cinco.

Lacuna, Marreta e Warblade são acomodados numa espécie de hotel chamado de “Mansão coincidente”, onde um campo gerador de baixa probabilidade cria pequenas coincidências com fins de entretenimento, mas Vodu é separada deles. Então aos poucos eles vão entendendo o que realmente acontece em Khera.

Já Devota e Emp são conduzidos cada um à sua própria ordem. Emp, acompanhado de Espartano em seu novo corpo, é levado para o PANTEÃO, o qual pode ser associado ao Partido Republicano dos EUA, rival à CODA, para onde Devota é escoltada até sua Torre do Lamento Escarlate. Embora opostos, a comparação correta da Coda com o rival do Panteão não seria o Partido Democrata americano e sim a Klu Klux Klan.

Warblade encontra seus iguais junto à Liga dos Modeladores, uma espécie de sindicado para pessoa com seu genótipo, onde conhece Lorde Proteus, o qual lhe ensina novas técnicas de combate. Lacuna, sendo meio terrestre e meio ser extradimensional, parece ter sido deixada como uma turista de classe cinco até segunda ordem, e Marreta descobre que descende da raça nativa de Kheranos, também chamados de Titanotropos, os quais foram colonizados e subjugados pelos que agora controlam o planeta, chamados por eles de “Olhos Frios”.

Vodu, porém, é classificada como classe seis devido ao seu exame de DNA detectar sua genética hibrida com os demonitas. Ela é separada de seus amigos, que na hora não ligam muito pra isso. O fato é que ela é asilada junto à “sua própria espécie” em “condições adequadas”, como dizem os soldados que a conduzem de forma truculenta até o seu bloco de contenção em um gueto demonita, onde eles vivem segregados e em condições de extrema pobreza e descaso.

Aproveitando-se da chegada dos visitantes, os partidos CODA e PANTEÃO decidem lançar Lorde Emp e Lady Zannah como candidatos ao senado. Usando sua experiência militar para angariar votos e apresentando Emp como um messias de discurso populista e Zannah uma líder militar de pulso forte. No entanto tudo passava de um golpe para que a CODA tomasse a poder, e planejaram então uma explosão em um ato público que tiraria a vida tanto de Emp quanto de Devota, fazendo dela uma mártir de sua causa culpando os Titanotropos, fazendo com que o Panteão perdesse sua maioria de votos.

Felizmente Hadrian burlou sua programação de fidelidade a Emp e descobriu o plano, embora tenha sido atacado, foi reconstruído a tempo de reunir seus amigos para que juntos evitassem o pior, ainda que quase tarde demais, numa tragédia que só não teve proporções maiores devido à ação da jovem titã idealista Glingo que conteve a bomba com seu próprio corpo, salvando a todos exceto a si mesma.

Depois que todas as mentiras vieram à tona, Emp e Devota desistiram de seus papéis como representantes de suas casas, e rejeitando os Lordes Kherubins decidem voltar para a Terra junto de seus companheiros, apesar das relações agora terrivelmente estremecidas.

Wildcats_de_volta_pra_casa_moore

Talvez o ponto mais baixo resida no fato de Alan Moore ter alternado as histórias entre a equipe em Khera e os novos Wildcats na Terra, o que diluiu um pouco o potencial de ambas, não que ele não tenha feito um trabalho de qualidade, mas as vezes um determinado grupo parecia perder energia, e como leitor desejava logo passar para o próximo plot. Dito isso, o roteiro desprendeu a equipe de seu não desmerecido esteriótipo de ótimos desenhos, muita ação e pouco conteúdo sobre o qual a Image pavimentou seu caminho com sucesso por muito tempo. Sem desrespeitar nem um milimetro das bases estabelecidas por Jim Lee e Brandon Choi, Moore acrescentou camadas de acontecimentos que embora ocorrendo com seres super poderosos e em outro planeta, refletiam exatamente o contexto político e social dos meros humanos sem habilidades especiais aqui da Terra.

Embora tenha sido publicado entre 1995 e 1996, já tratava de assuntos que apenas hoje (aparentemente) a maioria do público brasileiro está tendo contato ou pelo menos se importando com isso. Sim, tudo sempre esteve aí, mas o debate político evoluiu, e para o bem ou para o mal, nos separou entre os que concordam com determinado posicionamento ou não. Sem querer entrar no mérito dessa questão e do quanto esse comportamento, apesar de legítimo, pode ser nocivo se levado as últimas consequências, o fato é que na primeira vez em que li essa história, todo esse contexto político parecia algo tão ficcional quando os super-heróis. (Talvez pela minha inexperiência e pouca idade na época, ou mesmo pelo desinteresse político que existia nesse período). Hoje, no entanto, o roteiro de Moore tem outro peso, e nos pega diante de diversos conflitos e debates atuais na sociedade polarizada que vivemos. E não, Moore certamente não previu o futuro. Ele apenas viveu essa experiência bem antes de nós.

Numa época onde alguns defendem a ideia de “quadrinhos sem política”, “Wildcats – De volta para casa” é apenas mais um dentre tantos exemplos de que um dificilmente está desassociado do outro.

Mesmo não sendo (e nada nunca será) um novo “Watchmen”, a passagem de Moore nos Wildcats tocou em assuntos delicados, mostrou o interesse dos poderosos nos bastidores da guerra, planos de um golpe de estado, medidas extremas contra a violência urbana e suas consequências, segregação, luta de classes, fanatismo religioso e provavelmente várias outras nuances do nosso mundo jogadas na história enquanto nos distraíamos com os excepcionais desenhos de Travis Charest (o melhor artista do encadernado), sem esquecer também de Kevin Maguire (e suas impagáveis expressões faciais) e Kevin Nowlan, a quem cito aqui como outro desenhista de destaque. Os outros colaboradores cumpriram seu papel, mas fica difícil se destacar quando se é comparado com alguém do nível de Charest. Esse é inclusive outro ponto baixo da HQ, pois a qualidade da arte oscila demais.

E é no segundo volume encadernado “WILDCATS – Guerra de Gangues“, que vemos o retorno dos originais e o encontro das duas equipes na Terra, sobre o qual falaremos na próxima resenha!

WILDCATS –  DE VOLTA PARA CASA.

Roteiro: Alan Moore.

Lápis: Travis Charest, Kevin Maguire, Ryan Benjamin, Jason Johnson, Dave Johnson, Kevin Nowlan, Scott Clark.

Arte-Final: Troy Hubbs, Randy Elliot, Sal Regla, Scott Williams, Art Thibert, Hakjoon Kang, Andy Owens, Harry Thuran, Terry Austin, Tom McWeeney, Kevin Nowlan, John Nyberg, JD, Bob Wiacek e Dexter Vines.

Resenha baseada no encadernado publicado no Brasil pela Editora Pixel em maio de 2007.

Aproveite e leia também a resenha do crossover entre WILDCATS & X-MEN!

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