RESENHA: FÁBULAS – Bruxas

Por Henry Garrit

Resenha do encadernado FÁBULAS – BRUXAS, publicado no Brasil pela Panini, reunindo o título Fables 86 a 93.

Roteiro de Bill Willingham. Arte de Mark Buckingham, Steve Leialoha, David Lapham, Jim Fern, Andrew Pepoy e Craig Hamilton.

Uma breve história sobre FÁBULAS…

Era uma vez uma série em quadrinhos onde vemos que vários personagens da literatura infanto-juvenil existem em outros reinos muito, muito distantes, eventualmente conectados entre si, onde um déspota conhecido como ADVERSÁRIO dominou as assim chamadas “Terras Natais“, escravizando-os e obrigando alguns poucos refugiados a buscar exílio no “mundo real”, onde se estabeleceram secretamente na “Cidade das Fábulas”. Durante séculos (eles não envelhecem desde que as pessoas ainda se lembrem de suas histórias) vem tentando seguir com suas vidas. Obviamente seus “finais felizes” não foram tão felizes assim, e entre assassinatos, traições e golpes pelo poder, eles lutam para manter sua sociedade coesa. Algumas Fábulas não são humanas, mantendo sua forma original como animais falantes impossibilitados de se misturar com os mundanos, e por isso vivem num local chamado simplesmente de Fazenda.Sobre o encadernado BRUXAS…

É curioso pensar que embora tenha sido publicada originalmente como uma série mensal nos EUA, com revistas com a média de 22 a 24 páginas, toda a saga de FÁBULAS foi publicada no Brasil em encadernados reunindo arcos dessa grande epopeia. Embora os encadernados sejam publicados posteriormente nos EUA também, para nós resta apenas a experiência de apreciar a obra nesse formato, ainda que atualmente meio que todos os autores já sabem mais ou menos que suas obras podem ser republicadas dessa forma, então não é algo que faça uma diferença tão grande assim no planejamento dos roteiros, mas em alguns casos, podem trazer uma ou outra história fora de contexto, não que isso prejudique a leitura. O encadernado em questão, BRUXAS não se foca apenas nesse arco, mas vem acompanhando de histórias que o precederam e outras que se situam, digamos assim, “no meio do caminho”. É importante lembrar que o título precisa ser visto como um grande quebra-cabeça avançando para o movimento seguinte.Sob esse aspecto nenhum arco é realmente “fechado”, mas focado em determinada linha que eventualmente fará avançar a história. O encadernado apresenta um conjunto de narrativas, e não teria como escapar disso pois esse é o método do roteirista Bill Willingham, que conta várias pequenas histórias durante o percurso da trama principal. Sendo assim, começamos com uma elucidativa história sobre o grande vilão da vez, vulgo Senhor Escuro, narrada por ele mesmo, sendo ouvido apenas por uma horda de zumbis sem raciocínio trabalhando à sua volta, onde ele diz:

Quem sou eu? Sou a coisa que mal se enxerga na penumbra. O ser sombrio no canto de sua vista. Sou a criatura à espreita debaixo da cama do seu filho e escondida no armário dele”.

E assim ele prossegue, revelando como fora contido no passado, preso numa caixa por homens corajosos até ser recentemente libertado, num grande monólogo que soa esquizofrênico, mas não se engane, ao final da narrativa ele se volta para o leitor e deixa claro que era para nós que ele contava sua história. Não á toa ele termina dizendo:

Então, agora estou completamente restaurado nos incontáveis mundos de novo. Voltei para baixo de todas as camas. Mais uma vez meu passo é cada rangido na noite. Voltei a caçar vocês, meninas e meninos. Muito em breve vou visita-los pessoalmente e jantar seu medo, provar seus gritos deliciosos e devorar seus dentes. Não precisam mais procurar a escuridão, pois a escuridão está indo atrás de vocês. Oh sim, de fato eu vou”.

Isso me lembrou levemente o poema “Monólogo de uma Sombra” de Augusto dos Anjos. A quem interessar possa, vou deixá-lo na íntegra ao fim da resenha.

Arrasados com a destruição da Cidade das Fábulas e a perda de seu arsenal, conforme visto nas edições anteriores, os cidadãos refugiados das Terras Natais em nosso mundo só tem uma única forma de se defender desse ser odioso. Pra sorte deles, essa é possivelmente sua arma  mais poderosa: AS BRUXAS!

Logo após esse “prólogo”, entramos no arco que dá nome ao encadernado, dividido em cinco capítulos, cada um com o nome de um personagem que se destaca nas histórias: Bufkin, Totenkinder, Baba Yaga, Ozma e Gepeto, onde vemos o improvável heroísmo do macaco voador (Bufkin) resistindo com toda sua estratégia ao ataque da poderosa Baba Yaga, longe do conhecimento de Ozma, que embora tenha uma aparência inocente é uma das mais poderosas bruxas em atividade, conduzindo sua própria conspiração pessoal enquanto Gepeto não faz por menos, ainda que seus motivos sejam bem menos altruístas. (Gepeto, pai do Pinóquio, era o ditador conhecido como “Adversário” que conquistou as Terras Natais com crueldade, obrigando o êxodo das Fábulas para Reino dos mundanos.  – nosso Reino – e hoje é um prisioneiro da Cidade das Fábulas).Embora todos tenham importante função, a grande peça aqui é madame Totenkinder… Para situá-los sobre qual fábula estou me referindo, ela é a bruxa do conto de João e Maria, a dona da casa de doces que devorava criancinhas… Mas, como muitas outras fábulas, teve seus pecados da vida passada perdoados e é uma grande aliada dos refugiados. Não fosse assim, não teríamos Bigby Lobo (vulgo “Lobo mau”) como um dos mais importantes guerreiros da Cidade das Fábulas, pra citar um exemplo. Claro que nem todos estão dispostos a essa redenção, como a incontrolável Baba Yaga, que precisa constantemente ser contida para não causar mais estragos.

Totenkinder é uma peça-chave porque tem um trunfo importante contra o Senhor Escuro. Nas Terras Natais ela também já foi uma bela jovem que aprendeu como aprisionar o ser das trevas numa caixa. Não que seja tarefa fácil, visto que depois de tanto tempo preso ele está no auge de suas forças. Esse embate, entretanto, será debelado apenas no próximo encadernado, uma vez que o arco BRUXAS faz uma pausa para dar lugar a história em duas partes que se passa no Reino de Santuário nas Terras Natais, regido pelo Papa-Moscas (lembram do sapo que virava um príncipe após ser beijado? Pois então…). Apesar de fugir quase que completamente do foco principal da batalha entre o Senhor Escuro e as Bruxas da Cidade das Fábulas, temos uma trama interessante e bem conduzida, que só peca por estar no meio da grande expectativa entre o grande duelo, que como citado, ocorrerá somente no próximo encadernado.O texto de Bill Willingham é certeiro, bem construído e se você conseguir se acostumar com as drásticas mudanças de holofotes, vai perceber que a espera vale muito à pena. Ele se apropriou dessas Fábulas de forma inteligente, unindo-as num grande contexto que poderia ter dado muito errado, mas acaba funcionando muito bem, com diálogos críveis mesmo num cenário de fantasia e ficção. É possível que o excesso de texto afugente alguns leitores mais interessados em páginas duplas cheias de ação (embora creio que não seja o perfil dos leitores da Vertigo) mas quem pensar assim vai se privar de uma trama muitíssimo bem elaborada e construída de modo a não desperdiçar palavras, e sim ganha-las.  É fácil entender porque a série venceu 14 prêmios Eisner.

Mark Buckingham segue em seu papel de desenhista oficial, sendo o responsável pela nova abordagem de velhas fábulas, trabalho que fez com grande competência, sendo o responsável pelos desenhos das cinco partes do arco Bruxas, enquanto a história “A época do encaixotamento” que abre o encadernado é de Jim Fern, em um tom mais sério, o que combinou muito com a atmosfera sombria apresentada e a história no Santuário foi feita por Steve Leialoha, lembrando muito o próprio Buckingham, sem muitas novidades.

Fato é que a “convenção das bruxas” apresentada aqui, embora tenha tido um interessante caráter elucidativo apenas preparou o terreno para o épico confronto entre o Senhor Escuro e as Fábulas.

Não perca os próximos desdobramentos aqui no Santuário!

Leia também:

FÁBULAS INESCRITAS

FÁBULAS: O GRANDE ENCONTRO

Paralelos entre Fábulas e a série de tevê “Once Upon a Time”.

MONÓLOGO DE UMA SOMBRA 

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
— Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
— O metafisicismo de Abidarma —
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem.
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
— Engrenagem de vísceras vulgares —
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do ariete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epilépticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
— Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssirna existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
Á condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
— O homicídio nas vielas mais escuras,
— O ferido que a hostil gleba atra escarva,
— O último solilóquio dos suicidas —
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

– Augusto dos Anjos – 

2 comentários sobre “RESENHA: FÁBULAS – Bruxas

    1. Valeu, Paulo! E sim, é verdade, ainda mais se tratando de uma obra extensa como Fábulas, mas a Panini fez um bom trabalho com a publicação de encadernados, e começou uma série de republicações. Não deve ser difícil encontrar pelos sebos virtuais, caso tenha interesse. Abraços!!!

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