RESENHA: Lovecraft Country – Primeira temporada!

Por Henry Garrit

Recém chegado da guerra da Coreia, Atticus Turner (Jonathan Majors) volta para casa com uma inquietante carta de seu pai, Montrose (Michael K. Williams), pedindo sua ajuda. Atticus descobre que ele está desaparecido e com o auxílio de seu tio George (Courtney B. Vance) e sua amiga de infância Letitia, (Jurnee Smollett-Bell) reúnem pistas sobre seu paradeiro e partem em seu resgate. Essa jornada entretanto levará a todos por caminhos totalmente inesperados, onde descobrirão que a magia é real e que sua família está intimamente ligada a uma antiga Ordem mística liderada por homens brancos que pretendem usá-los em benefício próprio sem se importar com os efeitos colaterais e as vidas que possam se perder no caminho.  Tudo isso num ambiente repleto pelas mitológicas criaturas saídas dos livros do escritor H.P. Lovecraft, que é reconhecido na série como alguém real que supostamente teria sido influenciado por forças sobrenaturais para escrever seus contos de horror cósmico.

Mas quem diabos é H. P. LOVECRAFT?

Howard Phillips Lovecraft. Um homem solitário e atormentado por algumas tragédias pessoais, conheceu a loucura ainda menino quando seu pai foi internado com o diagnóstico de esquizofrenia. Sua mãe também tinha uma saúde frágil e com o tempo seus recursos financeiros foram se tornando cada vez mais escassos. Lovecraft não chegou a se formar, mas conheceu o jornalismo amador pelo qual se apaixonou. Começou a escrever seus contos de terror sem muita notoriedade, e aos poucos foi conquistando admiradores. Após a morte de sua mãe passou por um casamento mal sucedido, vindo a se mudar para a casa de duas tias em Providence, onde completaria muitas de suas obras e morreria pobre e sem reconhecimento, que só viria a ele postumamente, sendo hoje considerado um dos maiores nomes do gênero de terror de todos os tempos, sendo inclusive o precursor do assim chamado “Horror Cósmico”.

E sim. Ele era racista e xenófobo.

E o que é LOVECRAFT COUNTRY?

TERROR! AVENTURA! MISTÉRIO! FICÇÃO CIENTÍFICA! Longe de ser um retrato dos contos de Lovecraft, a série de tevê da HBO produzida por Misha Green, Jordan Peele e J.J. Abrams é baseada no livro “Território Lovecraft” de Matt Ruff, adaptada para dez episódios televisivos com  pequenas liberdades criativas que em essência não alteram a mensagem principal da obra, ao contrário, a enriquecem. Mas não se enganem, a mitologia lovecraftiana permeia todos os episódios, dando a ela novos (e em alguns casos, melhores, sentidos).

A grande pergunta que fica no ar, e esse é um dilema que aflige vários fãs, é a eterna questão: É possível separar o autor de sua obra? Podemos gostar da produção artística de um escritor racista? E não, não vou falar sobre a época em que Lovecraft viveu, sobre a cultura de seu tempo, ou uma possível redenção dele em seus últimos anos de vida. O estrago está feito. Fato é que o  autor do livro Território Lovecraft, Matt Ruff, bem como os produtores Misha Green, Jordan Peele e J.J. Abrams tiveram uma ideia bem melhor do que queimar os livros de Lovecraft em praça pública: Eles decidiram ressignificá-los! Tanto no livro quanto na série, os protagonistas são negros e vivem nos EUA da década de 50, onde o racismo era praticado sem pudor em atos abomináveis, como a segregação de pessoas pretas em ônibus, restaurantes, e empresas.

A história se passa num mundo cheio de magia, espíritos vingativos, criaturas com dezenas de olhos (as quais Lovecraft nomeou em seus livros como Shoggoths), maldições, viagens pelo tempo e por outras dimensões e ainda assim, a mais terrível ameaça, que realmente nos deixa tensos e revoltados, é o problema real, o qual ainda mantém seus tentáculos enraizados em nossa sociedade, algo que precisa ser constantemente combatido mas, como uma hidra de mil cabeças parece sempre retornar: O racismo.

E é por isso que Lovecraft Country não é apenas mais uma série de terror, (embora tenha sim, muitos desses momentos), mas mais do que isso, é um manifesto, um grito que as pessoas precisam parar de ignorar e encarar de frente. Misturando fatos com ficção, a série costura essa grande trama de modo a ser o entretenimento que os fãs do horror cósmico de Lovecraft tanto apreciam sem deixar de ser  um importante documento histórico, onde passagens apagadas pela história são trazidas à tona para serem debatidas, relembradas, lamentadas e principalmente tornarem-se duras lições que com sorte, serão aprendidas para que nunca mais nada parecido com isso aconteça novamente. (Embora eu saiba que agora mesmo enquanto esse texto é lido, em algum lugar, o racismo continua fazendo suas vítimas).

De forma tocante e sensível, em determinado episódio, a história nos leva para Tulsa de 1921, onde a comunidade estava em pleno desenvolvimento, considerada a “Wall Street negra”, até que a primeira desculpa fútil fosse usada para deflagrar o massacre que culminou no maior ataque de ódio da história dos EUA, com casas e prédios sendo queimados com famílias inteiras e centenas de vítimas fatais. Por muitos anos nem mesmo os moradores do lugar tinham acesso a esse trágico capítulo da história, sendo que apenas em 2017 ele foi finalmente incluído como conteúdo nas salas de aula. (O mesmo episódio foi também retratado recentemente em Watchmen).

Tulsa foi provavelmente o exemplo mais emblemático, mas na verdade a série tem tantas referências a cultura negra (incluindo-se a vertente de ficção científica do Afro-Futurismo) que seria difícil listar todas elas aqui. No entanto, não poderia deixar de citar a inclusão da história real do assassinato de Emmett Till, de 14 anos, espancado e morto de forma cruel. Sua mãe fez questão que seu velório fosse realizado com o caixão aberto para que todos vissem o estado em que seu filho foi deixado, repercutindo em muitos movimentos da luta pela igualdade.

Algo que talvez seja unanimidade entre os telespectadores é a conclusão de que a maldade humana sempre é mais terrível e assustadora do que qualquer monstro da ficção.

Esse processo de ressignificação da obra de Lovecraft funciona como uma pequena reparação, ainda que não seja possível mudar tantos séculos de abusos e sofrimento infligidos aos negros, é preciso que a luta antirracista seja uma constante para que haja esperança de alcançarmos uma nova geração de pessoas livres de preconceitos vivendo de forma plena esse ideal de igualdade.

Mas se engana quem acha que a série se resume a relevantes críticas sociais. A narrativa é repleta de mistérios e reviravoltas, com acontecimentos instigantes e personagens muito bem desenvolvidos, longe de ser maniqueístas, eles transitam entre o certo e o duvidoso, de modo que as vezes simpatizamos com os vilões e olhamos torto para os heróis, até que tudo vire de cabeça para baixo outra vez, e fiquemos o tempo todo nos questionando sobre a índole de cada um.

ATENÇÃO: A seguir, spoilers! Caso ainda não tenha assistido a série, volte aqui depois.

Basicamente, temos os dois primeiros episódios que se completam e depois, cada novo capítulo, ainda que continue dentro de um mesmo contexto, foca em algum personagem específico, dando espaço para que ele tenha sua própria história, mais ou menos como contos dentro da série, e cada um parece ser conduzido dentro de um gênero diferente, o que é muito bom! Dessa forma temos a história de Atticus numa aventura arqueológica, Letitia e sua casa mal assombrada, Ruby (Wunmi Mosaku) e seu estranho caso de metamorfose, Ji-Ah (Jamie Chung) se aceitando como uma lenda mitológica coreana, Dee (Jada Harris) tendo que ser forte para sobreviver a uma maldição aterrorizante e Hippolyta (Aunjanue Ellis) vivendo mil aventuras pelo multiverso no melhor estilo Doctor Who. Isso sem contar com as questões familiares tensas entre Ruby e Letitia e Atticus e Montrose, que aliás se revela homossexual e parece conseguir viver pela primeira vez de forma livre após tantos anos de preconceito e abusos. Montrose, inclusive é um dos personagens mais profundos, com muitas camadas emocionais, lidando com o fato de ser preto numa sociedade extremamente racista, e gay nessa mesma sociedade igualmente homofóbica, o que com o tempo nos faz entender algumas de suas ações ambíguas com mais empatia.

O grande mote se dá no fato da ambição de Christina Braithwaite, (Abbey Lee Kershaw) que após ser rejeitada pela Ordem dos Filhos de Adão pelo fato de ser mulher, deseja alcançar a imortalidade, necessitando para isso do sangue enfeitiçado do último descendente de Titus Braithwaite (Michael Rose) fundador da Ordem, ninguém menos que Atticus. Acontece que há muitos anos, Titus engravidou Hanna (Joaquina Kalukango), na época escravizada. Ele tentou lançar um feitiço que abriria os portões para o Éden, mas tudo deu errado e ele acabou morrendo. Hanna sobreviveu e fugiu do lugar carregando o poderoso Livro dos Nomes. (Ao contrário do “Necronomicon” citado nas obras de Lovecraft que seria o “livro da morte”, o Livro dos Nomes é o livro da vida, a chave para a imortalidade).

Atticus é descendente direto de Titus, e seu sangue contém o poder para terminar o que seu tetra-tetra-tetra-avô começou. O único problema é que para isso dar certo, ele precisa morrer, como um sacrifício no feitiço que Christina quer realizar no equinócio de outono, criando entre eles uma rivalidade que será levada até as últimas consequências. Cada episódio deixa pequenas pistas sobre os próximos passos, tornando-se uma história extremamente cativante, tanto pelo enredo quanto pelos personagens, com os quais criamos laços e tememos por sua segurança.

O final apoteótico entrega o que foi prometido, embora o excesso de expectativa possa ter prejudicado um pouco a experiência. Vários capítulos anteriores haviam sido épicos, então recai sobre o último deles a responsabilidade de superar todos, o que não acontece completamente, mas em nada prejudica a conclusão dessa surpreendente história.

Sem sombra de dúvidas, LOVECRAFT COUNTRY entrou para a galeria de minhas séries favoritas empatada com Watchmen, lançada no ano passado também pela HBO. Ambas são histórias que entretêm, nos motivam a assistir várias vezes para captar todas as referências, nos fazem refletir sobre os paralelos com o mundo em que vivemos e ainda aprendemos muito sobre diversos fatos históricos que precisam urgentemente ser discutidos em tempos que movimentos políticos se utilizam cada vez mais de discursos de ódio, racistas, homofóbicos e xenófobos angariando infelizmente um barulhento grupo de adeptos, que, embora não sejam a maioria (ainda acredito que a humanidade é melhor do que isso) estão por aí causando muito estrago.

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