RESENHA: BENDITA CURA – Vol. 2

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Por Henry Garrit

É com grande satisfação que retorno com uma nova resenha para este segundo volume de BENDITA CURA do roteirista/artista Mário César, onde é dada sequencia da história iniciada no volume um cujo artigo você pode ler AQUI!

Na edição anterior conhecemos o sensível Acácio, um garoto doce e feliz, e acompanhamos seu desenvolvimento e seu jeito de ser, que embora nada mais tivesse além da inocência de uma criança, dava sinais que preocuparam seus pais religiosos ultra conservadores, o que os fez reprimir seu filho e submetê-lo a várias humilhações além de não serem capazes de protege-lo de preconceitos externos, sem a menor ideia de como lidar com a possibilidade dele ser homossexual. E na tentativa de “curar” (tsc) seu filho, podem ter causado prejuízos irreversíveis ao jovem.

Neste novo volume, continuamos seguindo a trajetória de Acácio, agora mais velho, um estudante prestes a se formar, namorando uma menina chamada Célia e tendo como melhor amigo seu colega Juliano.

O roteiro trabalha toda a repressão infligida a ele e o dano psicológico sofrido pelo rapaz. Depois de vários tratamentos bárbaros e a própria relação abusiva de sua família homofóbica, ele cresceu introspectivo e em constante conflito com seus sentimentos, sempre sendo levado a acreditar que a atração que sente por outros rapazes era errada, um pecado, uma abominação. Esse conflito faz com que ele desenvolva uma homofobia interna, ainda que em certos momentos não seja capaz de conter seus impulsos, sente-se muito mal depois e acredita que precisa ser punido pelos seus “pecados”.

O grande mote é esse constante murro em ponta de faca dado pelo personagem, gerando essa aflição nos leitores, meros observadores incapazes de invadir as páginas do gibi para abraçar o Acácio e lhe dizer que está tudo bem, que ele é normal e nenhuma das falácias incutidas em sua mente é verdadeira. O quadrinho tem algumas sequencias tocantes, onde vemos o personagem perdendo elementos valiosos de sua afetividade que são de cortar o coração…

Durante muitos anos e infelizmente ainda hoje (embora eu queira acreditar que estamos em um processo de luta contra esses comportamentos medievais) muitos acreditam que a homossexualidade é uma doença que pode ser curada com terapia, oração ou até mesmo eletrochoque. A ignorância, a falta de informação e o ódio gratuito, e porque não dizer, o medo do desconhecido, têm atravessado gerações que reproduzem comportamentos homofóbicos que vão desde “piadinhas”, até sérias humilhações, agressões físicas e até mesmo a assassinatos. Não vamos nos esquecer que o Brasil é o país que mais mata a população LGBTQIA+ no mundo, e não estou falando dos anos 80 onde se desenrola a trama de Acácio, mas dos dias de hoje.

Tentar forçar uma pessoa a ser o que ela não é causa tantos danos em tantos níveis que que é difícil até listar todos. Crescer sozinho dentro de uma família que deveria lhe prestar apoio, suporte e amor, ser jogado numa sociedade que zomba de você, te considera algo inferior e indigno, acaba justificando as atitudes extremas de alguns gays que, em busca de aceitação, acabam aceitando se tornar “heteronormativos” em níveis que vão desde o “Sou gay mas me dou ao respeito… Minha relação é só entre quatro paredes e jamais serei visto na rua de mãos dadas com meu companheiro, tampouco beijando-o em público”, até os mais afetados, que de fato forjam uma vida heterossexual, se relacionam com mulheres mas eventualmente marcam encontros secretos com outros caras em aplicativos ou por outros meios, sempre no “sigilo”, na “broderagem”…

Que triste e frustrante deve ser essa coisa de viver pela metade, não? estar sempre com medo de ser descoberto, escondido e buscando desesperadamente agradar o estilo hétero, além de extremamente danoso para o próprio indivíduo acaba propagando ainda mais o preconceito. Não raro temos tantos casos de homossexuais em profunda depressão e infelizmente muitos chegam ao extremo de tirar a própria vida não suportando mais a imensa pressão vinda de todos os lados.

Para piorar, temos políticos ultraconservadores da extrema direita com seus discursos “pró-família” pseudo-religiosos (eles sabem mesmo algo sobre o amor de Deus?) que só validam o preconceito de uma população carente de mais informações, que se esqueceu (se é que um dia soube) como praticar a empatia, se colocar no lugar do outro, amar o próximo (este um dos maiores pilares do cristianismo que eles alegam professar).

Como disse o Youtuber Felipe Neto em entrevista ao programa “Roda Viva”: Hoje no Brasil caçar gays dá votos”. Essa é uma realidade estarrecedora que precisa  ser revista urgentemente. E a melhor forma que me ocorre de podermos fazer algo sobre isso é nos envolvermos cada vez mais com a política, estudarmos os candidatos e escolher aqueles que possuem propostas de governo mais igualitárias, com pautas sérias pela inclusão das minorias. E por que não, buscar representatividade votando em LGBTS engajados com a causa e dispostos a trabalhar por uma sociedade mais justa!

Acácio passa por muitos desses estágios, e acompanhamos aflitos seu processo de aceitação, que as vezes avança um pouco só para retroceder em uma montanha de culpa logo depois.

Mário César mantém a qualidade do volume anterior, tanto no texto quanto na arte. Os diálogos são ágeis e extremamente bem construídos, fazendo a leitura ser fluída e agradável.

A jornada de Acácio será concluída no próximo volume, onde continuarei torcendo para que ele encontre enfim a paz e o amor que tanto merece!

Nos vemos na próxima resenha!

Informações técnicas: 

Formato 16x23cm, 96 páginas, colorido, miolo em papel couché fosco 115g/m², lombada quadrada, capa cartonada com orelhas
ISBN: 978-85-924882-1-5
EntreQuadros (Independente)

HQ vencedora do Troféu HQ Mix de Melhor Web Quadrinhos e finalista do Prêmio Jabuti de Histórias em Quadrinhos.

Bendita Cura pode ser adquirida no site do autor.

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