RESENHA: Hellblazer infernal Vol. 3 – Anjos e Demônios

Por Henry Garrit

O encadernado lançado no Brasil pela Panini nos traz as edições 56 a 61 de Hellblazer, ainda sob a incomparável fase do roteirista Garth Ennis (Preacher) e arte de David Lloyd (V de Vingança), Steve Dillon (Preacher, Homem-Animal) e William Simpson, que desenharia alguns momentos memoráveis do personagem em parceria com Ennis. Temos aqui um ótimo compilado com as histórias “O Diário de Danny Drake”, “Barro Mortal”, sua continuação “Corpo e Alma” e o carro-chefe da edição: “Eles e Elas”, dividido em três capítulos.

O Diário de Danny Drake – de Ennis e Lloyd

O citado Drake começa a perder o controle sobre sua intimidade, se vendo compelido a revelar publicamente seus segredos mais sórdidos, os quais ele anotava em diversos diários. Constantine cruza seu caminho e descobre que existe uma influência infernal por trás desse comportamento, e por isso decide ajudá-lo. Essa história é emblemática pois apresenta um adversário que se tornaria recorrente: O demônio Triskele, cujo corpo é constituído por uma espinha dorsal que se move como uma centopeia, e usa como rosto a pele do arcanjo Dariel.

História fechada de terror ao melhor estilo Constantine, com um final plenamente satisfatório.

Barro Mortal / Corpo e alma –  de Ennis e Dillon

Contada em duas partes pela dupla criadora de Preacher, mostra um pouco mais da maldade humana e seus fetiches bizarros, porém, como Constantine está envolvido, é óbvio que teríamos alguns elementos sobrenaturais envolvidos. Apesar disso, fica claro que os autores quiseram evidenciar, ainda que de forma alegórica, que as vezes os piores demônios são humanos e o quanto a crueldade e a falta de empatia de alguns homens rivalizam com as dos próprios seres infernais.

A história é perturbadora na medida certa. (Se é que existe tal medida para isso).

Eles e Elas – de Ennis e Simpson

Esse arco em três partes é de longe o mais interessante do encadernado, ainda que as histórias anteriores não deixem a desejar. Mas aqui temos além de uma excelente trama de terror, a conexão de elementos com outra famosa série da Vertigo, Sandman, de Neil Gaiman. Antes de continuar, cabe explicar que em Sandman, tivemos um arco em que o Senhor dos Sonhos vai até o inferno em busca de um de seus artefatos, e após um entrevero que culmina com a vitória de Morfeus, Lúcifer, então soberano do lugar, decide deixar seu reinado e parte para a Terra. (Essa é a versão do personagem que inspirou a série de tevê “Lúcifer”, mas em nenhum momento Morfeus é mencionado, então as semelhanças terminam por aí). Depois disso, Morfeus fica com a “Chave do inferno”, mas se recusa a tomar posse do lugar. Assim, dois anjos são enviados pelo Paraíso para esse incumbência: Remiel, o que está acima daqueles que se elevam e Duma, o anjo do silêncio.Voltando a Hellblazer, no arco “Hábitos Perigosos“, vemos Constantine vendendo sua alma para o primeiro dos caídos após descobrir que tem um câncer terminal nos pulmões. Numa jogada de mestre, ele vende a alma também para o segundo e para terceiro, fazendo com que eles devam lutar entre si para reclamar a posse de sua alma. Como seu poder é equivalente, uma guerra entre eles poderia durar toda a eternidade e o inferno ficaria desprotegido contra as forças angelicais. Assim sendo, eles decidem curar Constantine e deixá-lo viver enquanto o impasse não é resolvido.

Acontece que muitas pessoas ficaram na dúvida sobre a identidade do primeiro dos caídos, confundindo-o com Lúcifer, até porque Sandman e Hellblazer (até certo ponto) aconteciam na mesma continuidade, inclusive com uma aparição especial de John em um número da revista do Senhor dos Sonhos.

Nessa história, Ennis explica de forma didática que quando Lúcifer caiu, já havia alguém na escuridão: A serpente do Éden, Satã… O primeiro dos caídos e seus dois irmãos. Sendo Lúcifer um dos primeiros arcanjos, e portanto muito mais poderoso, tomou o controle do inferno. Ennis inclusive menciona a partida de Lúcifer após interferência de Morfeus e ainda faz referência aos anjos Remiel e Duma que “pensam” tomar conta do inferno, quando na prática quem realmente manda são os três caídos.

Outro fato interessante é que essa história trata da relação de Chantinelle uma súcubo (espécie de demônio feminino) e sua relação com o anjo Tali. A princípio, ela deseja seduzi-lo por interesse, mas eles acabaram apaixonando-se e engravidando. A criança profana, cria de um anjo e um demônio não seria aceita nem no Céu nem no inferno, então eles pediram ajuda a Constantine, na percepção dele, o único ocultista que não estaria nem aí pra essa coisa do equilíbrio cósmico, quando ele menciona então o Vingador Fantasma (que na certa os entregaria) e o Senhor Destino (que com certeza os decapitaria).Também houve questionamentos sobre essa criança ser GÊNESIS, o ser que possui o reverendo Jesse Custer na série Preacher, também escrita por Garth Ennis. Porém, embora fizesse sentido, até que se prove o contrário, Hellblazer e Preacher se passam em continuidades distintas e não existe nenhuma relação entre as duas crias profanas.

É interessante notar, já que estamos falando de referências, que muitos elementos usados em Hellblazer também aparecem na série de tevê “Supernatural“, onde os irmãos Winchester lidam constantemente com anjos e demônios, inclusive desenham “símbolos mágicos” nas casas para mantê-los afastados e até mesmo em seus corpos. Porém, apesar da clara inspiração, são obras com identidade própria, longe de ser cópia uma da outra.

Outros três pontos curiosos abordados nesse encadernado:

1 – A transformação do demônio Nergal em humano e sua tortura no inferno pelo primeiro dos caídos. Leitores mais atentos vão lembrar que o sangue de Nergal corre nas veias de Constantine, as vezes ajudando, as vezes atrapalhando as investidas do mago. Já que não pode ter a alma de John, é como se o primeiro se contentasse em atormentar Nergal em seu lugar, o que fará com que ele desenvolva um ódio ainda maior pelo mago trambiqueiro.

2 – O primeiro dos caídos menciona numa conversa com Triskelle que anos atrás, lutou ao lado da hoste sagrada na guerra à sombra, e que o “ardiloso” Etrigan ostentou a coroa de chifres brevemente… Aqui ele se refere a edição 50 de Monstro do Pântano, escrita por Alan Moore, onde Constantine reuniu os maiores místicos do mundo para combater um ser sombrio que traria a escuridão eterna para toda a existência.

3 – Os demônios gêmeos Agonia e Êxtase aparecem para o primeiro e informam que pelas leis infernais, como Constantine já o derrotou três vezes, agora é livre, e é ele que deve padecer em seu lugar. O primeiro, é claro, os ignora, e os esquarteja. Agonia e Êxtase apareceram pela primeira vez na revista Sandman, justamente quando Morfeus visitou o inferno e confrontou seu antigo regente, Lúcifer.

O fato é que o inferno ainda não desistiu de Constantine e ainda há muita lava derretida pra rolar por debaixo dessa ponte de ossos…

Se liga no Santuário e não perca nenhuma resenha de JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER!

Coleção INFERNAL:

Vol. 1 – HÁBITOS PERIGOSOS

Vol. 2  – SANGUE REAL

Coleção ORIGENS:

Vol. 1  – PECADOS ORIGINAIS

Vol. 2  – TRIÂNGULOS INFERNAIS

Vol. 3  – NEWCASTLE E A MÁQUINA DO MEDO, ATO I

Vol. 4  – A MÁQUINA DO MEDO – ATO II

Vol. 5 – HISTÓRIAS RARAS

Vol. 6 – O HOMEM DE FAMÍLIA

Vol. 7 – O CORAÇÃO DO MENINO MORTO

Vol. 8 – A HORRORISTA E SANGUE RUIM

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