RESENHA: Kid Eternidade – “Mapas do inferno no bolso do casaco”.

Por Henry Garrit

Depois de trinta anos preso no inferno, o ser sobrenatural conhecido apenas como “Kid” conseguiu se libertar através de uma brecha criada inadvertidamente pelo comediante Jerry Sullivan após este sofrer um acidente de carro que o deixou entre a vida e a morte. Ele tem propósitos urgentes a realizar na Terra, mas antes pretende retornar ao inferno para libertar seu amigo, o “Senhor Zelador”, e para tanto precisará da ajuda de Jerry.  Kid tem alguns dons especiais, entre eles o de invocar antigos espíritos para vir em seu auxílio, precisando para isso proferir a palavra “eternidade”. No entanto, o caminho de Kid e Jerry tomará rumos inesperados e eles se verão confrontados por verdades perturbadoras acompanhadas de planos cósmicos de seres além da compreensão humana, cujos planos podem alterar o equilíbrio de uma guerra milenar e mudar para sempre tudo o que se conhece sobre a face da Terra e além.

COMO ASSIM VOCÊ NÃO ENTENDEU?” dizia o protagonista desta história numa arte promocional ilustrada pelo artista da mesma, Duncan Fegredo. A pergunta não é irrelevante, visto que algumas pessoas demonstram ficar um pouco confusas ao fim da leitura. Porém, creio eu, isso é fruto mais da impaciência do leitor do que culpa da história – e sim, o texto de Grant Morrison NÃO facilita mesmo – MAS, sério, está tudo lá; Origem do personagem, suas motivações, e explicaçõesexplicações detalhadas – eu juro, se tiver paciência de destrinchar o texto, vai encontrar tudo lá. Contudo, não vou mentir, foi preciso (no meu caso) reler a história para conseguir perceber todas as suas nuances. E ao contrário do que possa parecer, não foi uma experiência desagradável.

O grande lance é que, bom, primeiramente há de se levar em conta que o estilo Morrison contém todos esses elementos “místico-psicodélicos”, então quem o conhece já embarca meio que se preparando pra tempestade, mas em nenhum momento as perguntas ficam sem respostas. Na verdade, tudo é tão bem amarrado, que eu não sei como essa história de 1991 não criou vertentes mais fortes seguindo a premissa estabelecida ali. (Embora um título do personagem tenha sido lançado após a minissérie e o personagem tenha ressurgido em novas encarnações, mas isso não vem ao caso agora).

E tudo bem, eu admito que no começo da leitura tudo é mesmo um caos, muita informação, personagens jogados sem explicações, referências musicais, bíblicas, xamânicas, jogos de palavras, coincidências convenientes e outros truques narrativos que podem assustar quem chega desprevenido, mas repito: Sejam pacientes e persistam. As respostas vem e a recompensa é certa!

O ponto alto da história é sem dúvida a arte que abrilhanta o roteiro, criando paisagens feitas de puro devaneio, as quais me atrevo a dizer, excedem a melhor expectativa do escritor, elevando o nível narrativo a um patamar que poucos artistas conseguiriam.

Criado nos anos 40, publicado pela Quality Comics e anos depois adquirido pela DC, KID ETERNIDADE tem seu momento de revitalização nessa minissérie, onde o passado do personagem é integralmente levado em conta e atualizado de forma primorosa, sendo costurado com a mitologia mística da DC com seus Lordes da Ordem e do Caos.

A edição belamente pintada, é um vitral, um mosaico, e por que não dizer, estando tão imerso na leitura que não poderia ser também um caleidoscópio onírico, contando uma história de terror com um pretenso super-herói em uma clássica jornada de descida ao inferno para resgatar uma alma aprisionada injustamente… Ainda que nem tudo seja o que parece e essa viagem seja repleta de paradas com pequenas narrativas paralelas que igualmente interessantes, ajudam a montar o grande quebra-cabeças… Ou seria um caça-palavras?

No final, tudo leva a uma única verdade inabalável: Eternidade!

Publicado no Brasil pela Panini em um encadernado de capa dura reunindo as três edições com a história completa e alguns extras, KID ETERNIDADE mostra que é mais um título da Vertigo que envelheceu bem e ainda hoje pode – e deve – ser lido e apreciado como uma das grandes obras do selo adulto da DC.

 

 

 

 

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