RESENHA: SUPERMAN – O QUE ACONTECEU AO HOMEM DO AMANHÃ?

Por Henry Garrit

O encadernado publicado no Brasil pela Panini traz um registro de algumas das melhores histórias já produzidas para o Superman, e não por acaso, escritas pelo mesmo roteirista, Alan Moore. Embora tenham sido criadas em contextos distintos, todas funcionam nessa coletânea e não há fã do personagem que não reconheça sua importância. Ou há?

O ano de 1986 mudou tudo o que se sabia sobre o Superman. Depois da Crise nas Infinitas Terras, toda a continuidade (não apenas dele, mas de todos no seu universo) seria reescrita. Entretanto, antes do fim derradeiro dessa versão, onde John Byrne reformularia totalmente o personagem, foi concedido ao Homem de Aço uma despedida. Assim surgiu a história Whatever Happened to the Man of Tomorrow? publicada nas edições americanas Superman 423 e Action Comics 583, onde foi dada a chance de fechar todas as pontas soltas e decretar o desfecho daquela Era, sem precisar se preocupar com o famigerado “continua na próxima edição…“.

Em mãos menos habilidosas, poderíamos ter visto uma conclusão simples para um conjunto de histórias bem mais inocentes do que estamos acostumados, porém o que se viu foi uma narrativa tocante e inteligente que proporcionou o final digno e emocionante que o herói merecia, numa trama que não tem uma nem duas, mas VÁRIAS cenas memoráveis e de cortar o coração. 

Quando todos os seus grandes vilões resolvem atacar de uma só vez, e agora com instintos assassinos e até suicidas, Superman tem sua identidade secreta revelada ao mundo e seus amigos mais próximos estão sob ameaça. Assim ele os leva até sua Fortaleza da Solidão na tentativa de protegê-los, porém há vários indícios de que seu fim está próximo e ele precisará resolver um dilema que pode destruir seu legado. O preço a pagar é alto, mas o último filho de Krypton está disposto a romper todos os limites…

O QUE ACONTECEU AO HOMEM DO AMANHÃ? Teve desenhos do aclamado Curt Swan com arte-final de George Pérez e Kurt Schaffenberger.

A segunda história do encadernado pode ser considerada a menos notável, ainda que esteja longe de não ter uma boa trama, apenas se afasta do tom épico e narra o crossover do Superman com o Monstro do Pântano, cujo título escrito por Moore se tornou uma referência para os quadrinhos de terror e suspense, além de abordar temas ambientais e sociais relevantes até hoje. Publicada originalmente na revista DC Comics Presents 85, A LINHA DA SELVA nos mostra um Superman humanizado, doente e privado de seus poderes devido a exposição a uma planta alienígena (adivinhem de qual planeta…), e ele simplesmente dirige buscando um lugar para morrer.

Entre delírios e temores, Moore nos mostra as fragilidades do personagem e um duelo mental interessante entre o “Superman” e “Clark Kent”, um lutando pela vida, alegando ser o campeão da esperança que nunca desiste e o outro explicando que ele é apenas mais um mortal que vai conhecer a morte como todos os outros e não há nada de errado com isso. Um fato interessante é que a intervenção do Monstro do Pântano sequer é notada pelo Superman!

A LINHA DA SELVA teve desenhos de Rick Veitch e arte-final de Al Williamson.

Fechando a edição, temos a cultuada história PARA O HOMEM QUE TEM TUDO, produzida pela mesma equipe de Watchmen, Moore e Dave Gibbons e é incrível o gigantesco potencial narrativo dessa dupla!

No dia do seu aniversário, Superman recebe a visita da Mulher Maravilha, Batman e Robin em sua Fortaleza da Solidão. Porém eles não foram os únicos, já que o vilão Mongul também o presenteou com uma clemência negra, uma planta alienígena simbiótica que coloca seu hospedeiro em um transe telepático onde ele acredita viver seus maiores desejos enquanto esta se alimenta dele. Agora, cabe ao trio de heróis tentar salvar o Homem de Aço enquanto lutam para não morrer nas mãos de Mongul!

Tudo nessa história é interessante, tudo funciona, tudo se conecta em harmonia perfeita!  Moore não apenas nos apresenta diálogos incríveis, como uma caracterização perfeita dos personagens, ação na medida certa, reviravoltas, e um pertinente pano de fundo político com a tal “realidade feliz” vivenciada por Kal-El num Krypton que nunca explodiu, onde seu pai desacreditado como cientista, acabou se unindo a uma seita de extremistas que pregam a volta do “velho Krypton”…  Sem falar nos conflitos familiares na Casa de El e um desfecho emocionante. É sério, se leu essas histórias sem deixar nem uma gotinha de lágrima, desculpa te informar, mas você não tem coração!

PARA O HOMEM QUE TEM TUDO é o tipo de história que pode ser lida e relida de tempos em tempos e nunca deixa de ser atual. Na verdade… Acaba se tornando atual até demais…

CURIOSIDADES:

No Brasil a Panini publicou essa história em um encadernado, onde embora tenham optado pelo título em português “O que aconteceu ao Homem de Aço?“, preferi utilizar a tradução mais fiel do original (Whatever Happened to the Man of Tomorrow?) para essa resenha: “O que aconteceu ao Homem do Amanhã?” que remete bem mais ao clima saudosista impresso pelos autores.

O “futuro’ apresentado na história O QUE ACONTECEU AO HOMEM DO AMANHÃ? É 1997, anos após o desaparecimento do Superman, e Lois está em sua casa sendo entrevistada. É interessante ver a estética do que se pensava de futuro naquela época, com elementos que lembram a ficção científica dos anos 60 (que roupas são aquelas?). Mas isso não atrapalha em nada e até faz sentido dentro do universo onde tudo aquilo aconteceu.

Em A LINHA DA SELVA, Superman acessa um de seus poderes menos explorados nos quadrinhos, mas que vez por outra ressurge: A super memória! Ele a usa para se lembrar das informações que leu sobre a planta de Krypton, sendo capaz de citar a página 417, verbete 5308 do “Almanaque de Rem-Ul sobre o Velho Krypton“,  onde consta não apenas o nome vulgar da planta, Bolor Sanguíneo, como a antiga nomenclatura kryptoniana, Avarel Uthotis, e todas as informações sobre ela. Achou muito? Pois no texto de Moore é dito que a vastidão da memória do Superman seria suficiente para catalogar com precisão todas as formas concebíveis de flocos de neve… CARACA! Certeza que ele sempre foi o melhor da turma no Colégio Smallville!

PARA O HOMEM QUE TEM TUDO foi adaptado para um episódio da animação da Liga da Justiça escrito por J. M. DeMatteis, conhecido entre outras coisas por seus roteiros ao lado de Keith Giffen na fase “cômica” dos quadrinhos da Liga. Hoje parece um pouco bizarro lembrar que a Liga teve uma longa fase assim… E também dá um pouco de saudade.

Na versão animada, não houve a participação do Robin, diferente dos quadrinhos. Interessante que quem usa a máscara do menino prodígio na história é Jason Todd, que acabou imortalizado nesse clássico e suas infinitas republicações… É, essa você perdeu, Dick!

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