RESENHA: Lugar Nenhum

Por Henry Garrit

Richard Mayhew levava uma vida normal e chata com uma noiva controladora, um emprego maçante e uma rotina de tédio interminável, até se deparar com uma moça ferida num beco, e apesar da desaprovação de sua companheira, Mayhew decide ajudá-la. A jovem “Porta”, entretanto, está envolvida numa conspiração de assassinato e sendo perseguida por tipos extremamente perigosos enquanto precisa descobrir a verdade sobre trágicos eventos ocorridos com sua família. Mayhew acaba embarcando com ela nessa busca vertiginosa e todo o seu mundo vira de ponta cabeça a partir daí.

Ele descobre que ela veio de um lugar chamado Londres Abaixo, uma espécie de reflexo da Londres que conhecemos, porém repleta de elementos extraordinários. Onde no mundo “real” algumas coisas são apenas metáforas, lá as mesmas existem de modo literal! Mas não se engane achando que esse lugar é um reflexo distorcido da cidade; Segundo o ponto de vista de seus moradores, Londres abaixo é onde existe a verdadeira substância da vida, com uma sociedade culturalmente rica entre suas famílias reais, anjos, bestas-feras, mercados exóticos e caçadas mortais, sendo assim a cidade genuína e original, o que faz da Londres acima, a qual as pessoas querem dar tanto crédito, um local cinza, entediante e pobre de espírito.

E é assim mesmo que o autor compara o nosso mundo com os mágicos reinos da literatura. Em vários aspectos, ele não está errado.

Um dos pontos mais interessantes é a abordagem de pessoas invisíveis. Moradores de rua, gente que passa por nós e muitas vezes sequer percebemos sua presença. Cada uma dessas pessoas tem sonhos, uma história, e a maioria nem mesmo se dá ao trabalho de pensar sobre isso. Em determinado ponto, Mayhew  sente isso na pele ao voltar para sua própria Londres e não ser mais percebido pelas pessoas na rua, nem pelos seus conhecidos ou sua própria noiva, como se tivesse sido totalmente esquecido e apagado. É nessa hora que a verdade lhe atinge como uma flecha e ele consegue distinguir claramente os elementos divergentes de sua rotina antes tão valorizada em seu emprego enfadonho e sua relação superficial com a noiva com a nova realidade que visitara, embora completamente louca se comparada a tudo o que ele conhecia, porém inegavelmente muito mais interessante.

Na alegoria de Gaiman, esse povo esquecido habita uma realidade oculta que existe concomitante à nossa, esse “lugar nenhum” (perdão pela obviedade), ou se preferir, a já referida “Londres Abaixo”. (O que me faz pensar que cada cidade do mundo deve ter, segundo essa lógica, seu próprio lugar nenhum com toda uma gama de vida a qual sequer desconfiamos…).

Esse conto de fadas urbano, fazendo um paralelo entre Mayhew e Alice de Lewis Carroll, segue algumas fórmulas conhecidas. O protagonista entra numa jornada onde precisa passar por várias etapas até alcançar seu objetivo final. Isso não é necessariamente ruim, apesar de conhecermos o método, um bom autor sabe como utilizá-lo de forma dinâmica mantendo sempre o leitor interessado no que vai acontecer a seguir. Neil Gaiman certamente conhece todos os truques narrativos desse jogo, e Mike Carey não ficou para trás. Sim, embora a história seja baseada no livro “Neverwhere” de Neil Gaiman, a HQ foi adaptada pelo roteirista Mike Carey. Isso é ruim?  De jeito nenhum! Obviamente, já conhecendo a perícia de Gaiman nos roteiros de Sandman, por exemplo, havia a expectativa dele mesmo estar à frente desse projeto, mas Carey não decepciona e acrescenta seu ponto de vista à trama do livro, criando assim sua HQ com o ritmo que esse tipo de mídia precisa, mantendo-se fiel ao livro apesar de algumas alterações pertinentes, conforme ele mesmo explica no prefácio da edição encadernada.

Os desenhos de Glenn Fabry dispensam apresentações ao fãs do selo Vertigo (Atualmente “DC Black Label”, ainda me acostumando com isso…). Normalmente ele trabalha como capista, então certamente você já viu sua bela arte em capas de títulos como PREACHER e HELLBLAZER. E como não poderia ser diferente, ele manda tão bem na construção das páginas do miolo da revista quanto nas capas.

No mais, o que temos é uma bem sucedida adaptação literária para os quadrinhos, feita por autores que transitam muito bem entre as duas mídias.

LUGAR NENHUM foi publicado no Brasil pela Panini na extinta revista mensal “Vertigo” e mais recentemente num volume único encadernado de capa dura com 224 páginas, reunindo todas as nove edições da minissérie e uma galeria de capas.

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