Resenha: A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO DOIS

Por Henry Garrit

Nunca é fácil analisar o trabalho de Alan Moore. Esse desafio não se dá pelo fato de não apreciar sua obra, mas pela complexidade que ele faz questão de conceder ao texto, costurando imagens, ideias e referências em detalhes que nunca estão ali por acaso. Creio que seja possível fazer inúmeras resenhas abordando diferentes ângulos de um mesmo trabalho tal é o prisma de possibilidades que é apresentado, e analisar todas essas vertentes, apesar de fascinante, seria uma obra à parte. Por isso, em vez de ficar divagando, vou direto ao ponto!

Este é o segundo volume (de seis) de A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO publicado no Brasil pela Panini, (leia a resenha do primeiro AQUI) e traz um arco fechado e algumas tramas isoladas, cada uma brilhante à sua própria forma, o que faz do encadernado um verdadeiro tesouro para os fãs dos autores, do personagem e de boas histórias no geral. 

O ENTERRO é uma visita ao passado, onde o Monstro precisa lidar com o fantasma de Alec Holland, o qual ele acreditava ser após o acidente que o transformou, embora tenha apenas as memórias do mesmo. O objetivo aqui me pareceu dar uma conclusão a esse fato pitoresco, algo necessário uma vez que o Monstro do Pântano é detentor de toda e qualquer reação humana, e não poderia ter seu sentimento de luto renegado. Acidentalmente ou não (claro que não) essa história se liga a outra mais à frente no encadernado, então guardem esse pensamento que eu já chego lá. AMOR E MORTE, AURÉOLA DE MOSCAS e BALÉ DE ENXOFRE (vai saber escolher títulos bons assim lá na Louisiana) são a “Trilogia Arcane”, onde o terror pega pra valer, e os marmanjos choram escondidos para a mamãe não ouvir. Sim, é possível sentir medo lendo uma história em quadrinhos e isso vai além das cenas expositivas de entranhas explodindo na cara dos protagonistas. O suspense psicológico inegavelmente pode trazer incômodos profundos e um bom escritor aliado a bons artistas são plenamente capazes de nos “presentear” com belos pesadelos. O grande inimigo do Monstro do Pântano está de volta, e por onde passa, Anton Arcane deixa um rastro de caos, morte, destruição e muitos traumas mas dessa vez ele foi longe demais, tirando a vida de sua própria sobrinha para o desespero de nosso herói pantanoso, que não pode fazer nada quando encontra Abigail Cable morta. Ou pode?

DESCIDA ENTRE OS MORTOS foi publicado originalmente em Swamp Thing Annual 2 com um título autoexplicativo, um final esperado e um desenvolvimento extraordinário. É uma das histórias mais memoráveis da fase Moore (e olha que a concorrência é grande) e evoca sua própria versão do mito de Orfeu que desceu ao Hades para resgatar sua amada Eurídice com toques da Divina Comédia de Dante Alighieri, provando que velhas histórias nunca perdem a relevância. Com as ilustríssimas participações do Desafiador, Vingador Fantasma, Espectro e Etrigan, os autores narram a jornada do Monstro do Pântano ao inferno, onde Abigail foi injustamente jogada. É visualmente aterrador, no melhor sentido da palavra (se é que isso é possível). 

POG é a homenagem de Moore ao cartunista Walt Kelly, uma referência que dificilmente atinge o público brasileiro, mas ainda assim se mostra como a improvável história mais tocante do encadernado, onde vemos personagens que poderiam ter saído de um desenho animado passando uma importante e (infelizmente) atualíssima mensagem sobre a preservação do Meio Ambiente e uma alegoria aos efeitos dos abusos do homem à natureza. Ao fim da leitura foi interessante notar que apesar do meu coração de pedra, fiquei bem reflexivo e é possível que tenha caído um cisco no meu olho…

ABANDONADAS CASAS nos remete diretamente aos extintos títulos de terror de DC: Casa dos Mistérios e a Mansão dos Segredos, sendo essa última a revista onde Len Wen e Bernie Wrightson apresentaram pela primeira vez sua criação pantanosa ao mundo. Lembram quando lá no começo do texto eu disse que a história “O Enterro” se ligava a outra? Pois bem, aqui temos novamente uma visitação ao passado e as origens do Monstro do Pântano, mas Moore sendo Moore, encaixou a história original do personagem, ligando-a a uma cultura de “Protetores do Verde”, deixando claro que Alec Holland não foi o primeiro a se tornar um Elemental, onde a versão original se apresenta como um sonho guiado de Abby conduzida pelos anfitriões Cain e Abel, donos da Casa dos Mistérios e da Mansão dos Segredos. Os fãs de Sandman sabem que eles também reapareceriam com grande destaque como habitantes do Sonhar na versão de Neil Gaiman

RITO DE PRIMAVERA é a história de sexo do Monstro do Pântano com Abby, como muitos gostam de dizer, e não estão exatamente certos e nem totalmente errados. (Fez sentido?) Digo isso porque o ato sexual não se resume apenas ao contato de órgãos genitais. A comunhão entre dois corpos vai muito além… E quem pode julgar a forma como qualquer casal (maior de idade, de modo consensual e sem apresentar qualquer perigo para si mesmos ou para outros) faz para atingir seu clímax? Orgasmo mesmo é poder se deliciar com as lindas imagens da história e a condução sutil do texto, gozando de uma relaxante leitura. O resto fica na imaginação de cada um! 

Até a próxima! Resenha anteriores de MONSTRO DO PÂNTANO:

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO UM

MONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES – VOLUME 1

MONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES – VOLUME 2

MONSTRO DO PÂNTANO: OS NOVOS 52

 

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