RESENHA: HELLBLAZER INFERNAL VOL. 4 – MEDO E DELÍRIO

Por Henry Garrit

John Constantine está feliz. Não se engane, a vida dele ainda é um redemoinho de conflitos sobrenaturais, bebedeiras e armações envolvendo seres demoníacos e angelicais. No entanto, seu relacionamento com Kit está indo de vento em polpa e fazendo toda a diferença na vida do mago. Imagine que trágico seria se isso se perdesse abruptamente…

A equipe dos sonhos, Garth Ennis e Steve Dillon assinam todas as histórias deste encadernado, repetindo o sucesso de sua parceria na série Preacher e nos apresentando um Constantine ainda envolvido com os poderes infernais e todo tipo de magia obscura, mas enfrentando, como bem disse Warren Ellis em seu texto de introdução, as coisas mais assustadoras do mundo: As pessoas!

Diferente de outros volumes onde as histórias coexistem em arcos separados, aqui apesar de independentes (inclusive trama que nomeia o encadernado Medo e Delírio dividida em três partes) funcionam bem juntas, passando a tocha para a história seguinte. O texto de Ennis é visceral e debochado e parece perder todos os limites com a apresentação gráfica de Dillon, construindo uma narrativa extremamente divertida, deixando uma sensação de “quero mais”. Não que estejamos falando de temas leves, muito pelo contrário. Tivemos menos demônios e incursões ao inferno e mais da crueldade desmedida dos humanos de carne e osso. No decorrer da história, vemos os personagens lidarem com traumas de vários tipos, racismo, crimes de ódio, corações despedaçados (em vários sentidos), mas esperem… É aniversário de John! Então acompanhamos como foi o dia em que ele se tornou um quarentão, sua pequena “reunião” com amigos organizada pelo deus da festa, o momento constrangedor (e hilário) com o Vingador Fantasma e as habilidades do Monstro do Pântano sendo colocadas em prol de práticas mais… Recreativas.

Várias sementes importantes de eventos futuros foram plantadas, como a (quase) iniciação da sobrinha de John, Gemma na magia e as repercussões dos planos de Constantine em relação ao arcanjo Gabriel.

Ainda assim as coisas pareciam leves demais (para os padrões dele) mas é claro que isso não se manteria por muito tempo. Medo e Delírio expõe uma realidade chocante (e infelizmente ainda atual) sobre a manipulação política sobre as pessoas usadas como instrumento de ódio. Obviamente, o ódio sempre esteve dentro de cada um, apenas esperando uma brecha, uma falha de caráter ou um momento de medo, estresse e desespero para vir à tona e isso por só já seria horrendo o bastante, mas imagine quem se aproveita disso conscientemente para manipular as pessoas, usando esse ódio, e alimentando seus medos para transformá-las em agentes de seus interesses odiosos? É exatamente isso que vemos na história de Ennis, e nas palavras do personagem fascista Charlie Patterson, ditas a um Constantine amarrado a uma cadeira ao lado de seu amigo Dés, um homem negro violentado até a morte (a cena mais forte da HQ) por esse ódio irracional instilado pelos “poderosos” a seus seguidores:

“Pois todos nós temos medo, Constantine. Medo de perder os mundinhos que garfamos pra nós mesmos e, se vemos alguém que tenta roubá-los de nós… Tanto melhor. Não precisamos mais ter medo. Podemos ter ódio. É aí que eu entro, você sabe. ‘Olha essa maldita pretaiada‘ eu digo. ‘Olha o criouléu vindo como se fossem donos do pedaço, tirando nossos empregos, comendo nossas mulheres. Olha os malditos paquistaneses pegando nossos pequenos negócios...’ Funciona que é uma beleza. Claro que os progressistas vão fazer filmes e tal, pra denunciar agressivamente a estupidez do racismo com enredos espertos e metáforas bem sacadas… E as pessoas vão dizer: ‘Sim! É errado odiar alguém por causa da cor da pele!‘ Aí elas saem pra beber e, meia cerveja depois, voltam a contar piada de paquistanês. É esse o seu problema, na verdade: Esquerdistas em geral não se tocam de que estão pedindo às pessoas pra agirem contra os próprios instintos. Eu digo: Tenha medo, vá em frente em odeie. É só odiar o bastante que  você vai esquecer que mora num buraco sem emprego, sem serviço de saúde nem seguro social, e que é um retardado sem esperança nenhuma. E precisamos dar alguma coisa pros retardados fazerem”.

Esse discurso abominável dito pelo personagem reflete uma parcela real da sociedade, desde aqueles que estão no topo até os da base que se permitem seduzir por essa fala, deixando o ódio falar mais alto. Os estragos causados são irreparáveis, por isso é tão importante que o conhecimento, a ciência, a consciência de classe e as instituições democráticas estejam sempre fortalecidas para combater essa mácula social. Essa HQ foi publicada em 1993, onde a tecnologia da comunicação e a disseminação das informações falsas e desinformação não eram tão eficientes como hoje, não se propagavam tão rápido… E mesmo depois de tanto tempo, tantos erros e tantas lições não aprendidas, esse problema continua entre nós.

Sorte no jogo, azar no amor, Constantine consegue mais uma vez ser bem sucedido em suas mutretas, obtendo grande vantagem contra seus inimigos ao enganar Gabriel, mas os eventos relacionados acabam atropelando sua relação com Kit,  desfazendo toda aquela aura de felicidade e colocando John numa sarjeta de autopiedade, amargura e rancor, ligando o seu “foda-se” no volume máximo para o mundo.

Enfim, o velho John Constantine que aprendemos a amar.

Até a próxima resenha!

 

Se liga no Santuário e não perca nenhuma resenha de JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER!

Coleção INFERNAL:

Vol. 1 – HÁBITOS PERIGOSOS

Vol. 2  – SANGUE REAL

Vol. 3 – ANJOS E DEMÔNIOS

Coleção ORIGENS:

Vol. 1  – PECADOS ORIGINAIS

Vol. 2  – TRIÂNGULOS INFERNAIS

Vol. 3  – NEWCASTLE E A MÁQUINA DO MEDO, ATO I

Vol. 4  – A MÁQUINA DO MEDO – ATO II

Vol. 5 – HISTÓRIAS RARAS

Vol. 6 – O HOMEM DE FAMÍLIA

Vol. 7 – O CORAÇÃO DO MENINO MORTO

Vol. 8 – A HORRORISTA E SANGUE RUIM

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