RESENHA: A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO QUATRO

Por Henry Garrit

“Pulgão come folha. Joaninha come pulgão. Solo absorve joaninha morta. Planta se nutre do solo. O pulgão é maligno? A joaninha é maligna? Onde está o mal na mata toda?”

Finalmente o grande momento previsto por John Constantine está prestes a chegar, quando um mal indescritível será liberado pela seita conhecida como Brujería, o Monstro do Pântano segue em sua jornada pessoal tentando adquirir respostas sobre si mesmo sem abrir mão dos sentimentos por sua amada Abigail Cable. Porém, antes da grande apoteose, ele ainda terá que lidar com o terror que vem sendo alimentado nos últimos tempos, o que pode ou não lhe conceder um conhecimento imprescindível sobre o seu inimigo vindouro.

Depois de muitos desvios, finalmente estamos rumo a edição comemorativa de número 50 de Swamp Thing, a última e arrebatadora publicada neste encadernado e que encerra a grande preparação que vinha sendo feita por Alan Moore, com Constantine movendo as peças no tabuleiro e levando o Monstro do Pântano a estar pronto para encarar esse desafio. Sem se preocupar com o tempo, o roteiro foi se encaminhando, às vezes de forma explicita de outras desviando o foco, mas sempre nos lembrando do que estava por vir. O grande mote das histórias passou a ser, ao meu ver, confrontar a visão maniqueísta que os quadrinhos – e muitas pessoas na vida real – tem sobre a vida, fiando-se em pilares absolutos de bem e mal. Já na primeira história da edição, “E o Vento Trouxe“, ainda que pareça um tanto quanto desconectada dos anunciados eventos apocalípticos, trata justamente disso, ao acompanharmos o personagem Chester, que recolhe um dos frutos (na verdade uma leguminosa) no pântano, a qual havia brotado do próprio corpo do nosso esverdeado protagonista.  Já havíamos visto isso antes, quando ele compartilhou algo semelhante com Abby, fazendo-a conectar-se com o mundo imaterial, e ao enxergar as coisas sob a ótica do Monstro, entrar em comunhão com ele, vivenciando um nível de proximidade tão ou maior do que um ato sexual. Acontece que os experimentos de Chester o levam a acreditar que o material tem efeitos diferentes em cada um, evidenciando aquilo que a pessoa já tem dentro de si, na forma de alucinações que podem levá-la ao inferno ou paraíso, numa metáfora que não perderia a importância nas edições seguintes.

 

Depois disso tivemos os últimos passos antes do clímax, com Moore retomando seu inconfundível texto a favor de histórias apavorantes, desta vez inovando ao mostrar um serial killer em plena ação em “Bichos-Papões” e uma das melhores edições fechadas (dizem ser a preferida de Moore) “Dança dos Fantasmas“, onde ele explora a lenda da casa da família que fabricava armas, cuja construção se mantinha ininterrupta, segundo sua superstição, para o agrado dos espíritos daqueles que perderam a vida através dessas armas. (Para quem assistiu ao filme “A Maldição da Casa Winchester” de 2018, trata-se basicamente da mesma lenda, porém essa HQ de 1986 é MUITO superior). Além do terror de primeira, insere uma importante crítica a cultura armamentista que – pra variar – continua extremamente atual nos dias de hoje.

“Esse Constantine é uma figura difícil de entender. Alan Moore me disse que pensava tê-lo criado… Até que uma tarde, numa lanchonete em Westminster, eles se encontraram, aparentemente por acaso. Constantine vestia paletó elegante e casaco sujo, e carregava mochila. Deu um rápido alô a Alan e foi embora comer seus sanduíches. Alan Jura que é verdade, e eu acredito. Acredito até o fim do mundo…”

Neil Gaiman

 

Revelações” é onde o título se encaixa ao crossover da CRISE NAS INFINITAS TERRAS, com direito ao Monstro do Pântano e Constantine indo ao satélite do Monitor onde estavam os outros heróis e uma audiência com Alex Luthor, que os conduzia naquele momento. É importante frisar que enquanto a Crise tentava evitar o fim do multiverso e do mundo material (conforme Constantine fez questão de explicarna história), a grande ameaça para a qual ele vinha preparando o Monstro do Pântano era no plano imaterial, sendo que os cultistas da brujería se aproveitaram dos abalos ocasionados pela Crise, abrindo caminho para sua própria escuridão primordial. Obviamente foi a forma que Moore encontrou de encaixar as duas coisas, uma vez que por imposição editorial, a revista teve que fazer parte do evento, porém mesmo essa explicação tendo meio que “amenizado” a própria ameaça que o Monstro do Pântano teria pela frente, o texto conseguiu nos convencer de que se tratava de algo tão terrível ou pior que o fim do multiverso. Em “O Parlamento das Árvores“, Constantine cumpre sua promessa de revelar ao Monstro do Pântano as respostas que tanto buscava, ao mesmo tempo em que isso ia de encontro a seus interesses, não que o mago tivesse intenções ruins, ele apenas usou de manipulação e mentiras para obrigar várias pessoas a lutar nessa linha de frente… Enfim, Constantine sendo Constantine. “Revoada de Corvos“, “O Conjuro” e “Fim” funcionam juntas para o grande e épico momento da chegada da escuridão, com participação de diversos personagens místicos da DC, onde vemos que toda a espera valeu à pena. A trama é quase hipnótica, e a batalha tem alguns dos melhores momentos de vários personagens, ouso dizer, não superados até hoje. Céu e inferno, luz e trevas… E a grande resposta do Monstro do Pântano acaba sendo decisiva para alterar o rumo dos acontecimentos. Vale destacar a impecável caracterização de todos os personagens, alguns deles levados ao seu limite e vivenciando tragédias que redefiniram seu status… Era Alan Moore ditando regras que anos depois continuariam vigentes.

 

Publicada no Brasil pela Panini, A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO: LIVRO QUATRO tem a arte indissolúvel ao texto de Moore de Stephen Bissette, John Totleben, Stan Woch, Rick Veitch, Alfredo Alcala, Ron Randall e Tom Mandrake, que entregam mais uma atemporal obra prima dos quadrinhos.

Resenha anteriores de MONSTRO DO PÂNTANO:

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO UM

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO DOIS

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO TRÊS

MONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES – VOLUME 1

MONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES – VOLUME 2

MONSTRO DO PÂNTANO: OS NOVOS 52

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