RESENHA: HELLBLAZER INFERNAL VOL. 7 – UM SACANA NOS PORTÕES DO INFERNO

Por Henry Garrit

Constantine encontra por acaso uma velha amiga envolvida com drogas e prostituição e decide ajudá-la, porém seu cafetão se mostra alguém possessivo e extremamente violento e não aceita perdê-la assim tão facilmente. Ao mesmo tempo, vemos os conflitos raciais entre a policia e manifestantes antifascistas se agravarem, tendo George (irmão do falecido amigo de John, Des), no olho do furacão, sendo perseguido após participar das manifestações. Mas é claro, como desgraça pouca é bobagem, ainda mais em se tratando de Constantine, ele ainda precisa lidar com o retorno do Primeiro dos Caídos, que aparentemente conseguiu uma forma de burlar as regras do inferno e reivindicar sua alma com a ajuda de ninguém menos que a menina Astra (a criança do famigerado exorcismo de Newcastle de anos atrás, cujo fracasso assombra Constantine até hoje).

Publicado no Brasil pela Panini, o encadernado HELLBLAZER: UM SACANA NOS PORTÕES DO INFERNO traz a história que nomeia o volume dividida em seis partes, finalizando com a edição originalmente publicada no especial Heartland. Seguimos com a dupla dos sonhos Garth Ennis e Steve Dillon à frente do título (numa parceria que mais tarde se repetiria no aclamado Preacher), onde o roteiro se equilibra entre os problemas mundanos de John (que por si só já seriam o bastante para sustentar a história), com suas tretas do além, afinal ele é um mago urbano e se tem alguém que conhece o limite entre o inferno na terra e o literal é ele.

Depois de passar cerca de um ano como morador de rua, praticamente tendo desistido da vida, vemos Constantine de volta à velha forma, lidando com várias situações simultâneas, o que não é garantia nenhuma de que as coisas saiam do jeito que ele quer. O seu nível de manipulação está elevadíssimo, mas ainda com diversos efeitos colaterais, então mesmo que ele conte com muita cara de pau, boas doses de loucura, alguma sorte e a aposta nas suas habilidades como mago, o preço é cobrado e várias baixas são sofridas no decorrer da trama. Esse arco é especialmente violento, não que isso não seja mesmo uma das especialidades de Ennis e Dillon, e algo inerente ao título Hellblazer, mas além da violência gráfica (que acreditem, está bastante presente), temos outros tipos, os quais se incluem abusos psicológicos, assédio, exploração sexual e claro, o racismo retratado sem filtros na forma da repressão policial contra os manifestantes negros. Um breve alívio vem no reencontro de Constantine com Kit, onde eles têm a chance de curar suas feridas, mas foi algo realmente breve, pois logo os terrores do inferno bateriam na porta de John.

O que temos então é o embate (final?) entre Constantine e seu nêmese, o Primeiro dos Três, ou Primeiro dos Caídos se preferirem. É válido salientar que não se trata de Lúcifer. O Primeiro dos Caídos habitava uma escuridão anterior a Criação e caiu antes mesmo que houvesse um inferno, tomando para si a denominação genérica do demônio, o próprio Satã. Já Lúcifer foi o primeiro dos anjos (arcanjo, no caso) a cair, encontrando inferno e tomando o controle dele para si. Novamente temos a inteligência (e o dom para criar armadilhas e armações) de Constantine contra o ser infernal supremo, talvez não tão incrível quanto visto em seu encontro inaugural na história HÁBITOS PERIGOSOS (até porque seria inútil tentar repetir o feito), mas algo próximo disso, mostrando a versatilidade do roteirista em planejar as malandragens de Constantine.

O encadernado fecha com a história “À Terrinha“, (Heartland) onde mais uma vez Ennis coloca os holofotes na personagem Kit e aproveita para falar um pouco sobre a própria terra natal, mostrando a realidade de Belfast (Irlanda) – realidade tal qual era na época em que a escreveu, em 1994 – ao mesmo tempo em que narra as desventuras familiares dela, numa história repleta de momentos cômicos alternados com cenas fortes e situações consideradas até mesmo “novelescas”, porém muito bem construídas.

ATENÇÃO: AVISO DE SPOILER! – Caso ainda não tenha lido a edição, volte aqui depois! – 

Procurado no Limbo por Astra, o Primeiro ouve dela uma forma de burlar as regras e tomar Constantine para si, dizendo que ele não precisava disputá-lo com os outros dois caídos, pois na verdade, eles não eram iguais a ele, apenas demônios de classes superiores. Assim, ele os convoca e os destrói, ficando livre para agir.

Constantine no entanto, ainda tinha uma carta na manga, o coração (literalmente) do Arcanjo Gabriel arrancado de seu peito, o que permitia que ele o controlasse, porém essa vantagem também foi desfeita quando o Primeiro foi em seu encalço e o eliminou, condenando-o ao inferno. Mas como o Primeiro soube desse segredo? Acontece que Astra era na verdade a demônia Chantinelle, que no passado engravidou de um anjo e teve seu amado morto por Gabriel. Ela estava a serviço de Constantine que havia engendrado essa farsa, pagando assim a dívida que tinha com ele, mas se aproveitou do momento para se vingar do Arcanjo. De volta ao plano original, ela usa uma adaga feita da matéria dos outros dois caídos e apunha o Primeiro, impedindo-o, aparentemente dando fim a ele.

Detalhe curioso: No encadernado AMOR IMPURO, conhecemos a história do Padre Tolly, um psicopata que tentou estuprar John quando ele era adolescente. Essa história mostra a “confissão” do Primeiro dos Caídos ao padre, o que supostamente o teria levado ao seu estado mental psicótico. A história termina sem que o conteúdo dessa confissão seja revelado, mas aqui, finalmente ele decide contar a John, (lembrando que o que ele disse pode ou não ser verdade). Segundo o demônio, ele foi o primeiro a ser criado por Deus, antes mesmo de existir um universo. Quando Ele lhe contou sobre seu projeto de criar uma raça de seres imbuídos de livre-arbítrio, o Primeiro discordou dessa decisão, causando um inédito conflito entre eles. Depois de um tempo afastado, ele o flagrou um momento que deixou claro que o Todo-Poderoso era na verdade insano e por esse motivo, Ele o lançou pelas das trevas até que caísse nas sombras que viriam a ser o inferno. Sendo assim, (tomando esse relato como verdadeiro), toda a base da religião cristã seria baseada nos caprichos de um louco, que apenas brinca aleatoriamente com suas criações tal fossem brinquedos que facilmente podem ser descartados quando não mais o entretêm.

Assim como fariam em Preacher, Ennis e Dillon desconstroem mitos religiosos, denunciando a hipocrisia da igreja e o fanatismo religioso usado por muitas pessoas como pretexto para oprimir outros grupos, com falas que influenciam desde interações familiares até discursos de políticos conservadores que usam de suas crenças para impor seus interesses sob a população, tornando assim a leitura de Hellblazer mais que mero escapismo, um convite à reflexão.

Se liga no Santuário e não perca nenhuma resenha de JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER!

Coleção INFERNAL:

Vol. 1 – HÁBITOS PERIGOSOS

Vol. 2  – SANGUE REAL

Vol. 3 – ANJOS E DEMÔNIOS

Vol. 4 – MEDO E DELÍRIO

Vol. 5 – AMOR IMPURO

Vol. 6 – CHAMAS DA PERDIÇÃO

Coleção ORIGENS:

Vol. 1  – PECADOS ORIGINAIS

Vol. 2  – TRIÂNGULOS INFERNAIS

Vol. 3  – NEWCASTLE E A MÁQUINA DO MEDO, ATO I

Vol. 4  – A MÁQUINA DO MEDO – ATO II

Vol. 5 – HISTÓRIAS RARAS

Vol. 6 – O HOMEM DE FAMÍLIA

Vol. 7 – O CORAÇÃO DO MENINO MORTO

Vol. 8 – A HORRORISTA E SANGUE RUIM

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