RESENHA: HELLBLAZER INFERNAL VOL. 8 – O FILHO DO HOMEM

Por Henry Garrit

“Este é o seu mundo. Pálpebras fatiadas, bebês em ganchos de açougue, estripações e estupros… Você leva o tipo de vida pelo qual os assassinos seriais batem punheta”.

Há dezesseis anos, o filho do mafioso londrino Harry Cooper morreu, deixando-o completamente fora de si. Em um ato de desespero, ele convocou o mago John Constantine, na época internado no hospital psiquiátrico de Ravenscar, obrigando-o a trazer seu filho de volta sob a ameaça de matar sua irmã e sobrinha caso se recusasse. Ressuscitar os mortos estava além das capacidades dele, mas diante dessa imposição, ele “fez a sua mágica”… E agora, passado todo esse tempo, terá que lidar com as consequências desse ato.

Este encadernado marca a despedida do roteirista Garth Ennis (Preacher), e também o fim da coleção Infernal, como foi batizada no Brasil pela Panini, iniciando em seguida novas coleções com outros autores, sobre os quais falaremos em resenhas futuras.

Para esta despedida, temos que registrar a ausência do grande parceiro de Ennis, Steve Dillon, tendo sido substituído pelo também competente John Higgins, (colorista original de Watchmen e autor de “A Condenação do Corsário Carmesim”, publicados na minissérie “Antes de Watchmen“) que apesar de mostrar um traço mais caricato, consegue passar a crueza das muitas cenas viscerais e escatológicas apresentadas, onde o roteiro entrega de forma bem equilibrada seu costumeiro realismo fantástico e as mazelas de um mundo cão misturadas aos terrores do sobrenatural e suas excruciantes repercusões.

Ennis escolhe uma forma diferente de narrativa, fazendo com que Constantine quebre a quarta parede, olhe para a “câmera” e fale diretamente com os leitores, narrando a história. Geralmente esse recurso é usado na forma de recordatórios, onde o protagonista parece escrever uma espécie de diário, mas aqui essa mudança caiu bem, concedendo a Constantine o ar de superioridade de “narrador universal”, reforçando seu caráter egocêntrico, demonstrando sua solidão, uma vez que a maioria de seus amigos estão mortos, deixando-o a ponto de falar com o leitor por pura falta de opção, ou sob outra ótica, falando sozinho, como fica claro em algumas cenas em que ele é flagrado conversando com os leitores por personagens secundários que não entendem nada, reforçando a conotação de algum tipo de distúrbio mental do mago.

Essa sensação de nostalgia é abordada mais uma vez na história que encerra o encadernado “Todos esses meninos e meninas“, com arte intimista de Glyn Dillon, (irmão de Steve) publicada originalmente numa edição especial, revisitando alguns dos momentos mais marcantes da vida de John e algumas passagens – a maioria delas trágica – com seus amigos falecidos e os poucos sobreviventes.

De volta ao arco principal, “O Filho do Homem“, a relação de Constantine com seu antigo parceiro Chas é um dos motes principais da trama, sendo um dos poucos amigos do mago que ainda respiram, ele precisa de sua ajuda para resolver uma situação crítica, a qual o conecta com o mesmo mafioso cujo filho ele foi obrigado a “ressuscitar” anos antes. Embora a coincidência nesses casos sempre pareça um pouco forçada, as explicações são convincentes e a construção dos diversos personagens coadjuvantes, em maior ou menor escala, ajuda a dar credibilidade ao roteiro.

Não é como se já não tivéssemos visto cenas chocantes em Hellblazer, mas este volume trouxe alguns dos momentos mais perturbadores da série até então, com cenas de tortura, estupro, violência e assassinatos com requintes de crueldade, incluindo uma determinada cena especialmente forte envolvendo bebês.

O demônio conjurado por John para satisfazer o vontade do mafioso em luto age com extrema frieza, aguardando anos para concluir seus planos, mas quando se revela em sua verdadeira forma, mostra-se como uma criatura asquerosa, um predador sexual que me pareceu inspirado nas criaturas do filme “Aliens”, incluindo aí uma cena em que ele aproxima sua face medonha a de Constantine e lambe seu rosto, lembrando uma das mais icônicas cenas do filme protagonizado pela Tenente Ripley (Sigourney Weaver).

Repleta de momentos bizarros, com roteiro inteligente e um John Constantine no auge de seu cinismo, Garth Ennis se despede de forma digna do título, deixando para o próximo autor a árdua tarefa de manter esse alto nível.

JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER – INFERNAL VOL. 8: O FILHO DO HOMEM foi publicado no Brasil pela Panini em um encadernado com as edições 129 a 133 de John Constantine Hellblazer e a história da edição especial Vertigo Winter´s Edge 2.

Se liga no Santuário e acompanhe com a gente as resenhas de TODOS os volumes de JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER!  

Coleção ORIGENS:

Vol. 1  – PECADOS ORIGINAIS

Vol. 2  – TRIÂNGULOS INFERNAIS

Vol. 3  – NEWCASTLE E A MÁQUINA DO MEDO, ATO I

Vol. 4  – A MÁQUINA DO MEDO – ATO II

Vol. 5 – HISTÓRIAS RARAS

Vol. 6 – O HOMEM DE FAMÍLIA

Vol. 7 – O CORAÇÃO DO MENINO MORTO

Vol. 8 – A HORRORISTA E SANGUE RUIM

Coleção INFERNAL:

Vol. 1 – HÁBITOS PERIGOSOS

Vol. 2  – SANGUE REAL

Vol. 3 – ANJOS E DEMÔNIOS

Vol. 4 – MEDO E DELÍRIO

Vol. 5 – AMOR IMPURO

Vol. 6 – CHAMAS DA PERDIÇÃO

Vol. 7 – UM SACANA NOS PORTÕES DO INFERNO

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