RESENHA: HOMEM-ANIMAL – CARNE E SANGUE

Por Henry Garrit

“Que vastidão vermelha, que mundo fantasma, que limbo é esse?”

Morando na fazenda de sua sogra, Buddy Baker, o Homem-Animal, sua esposa Ellen e a filha Maxine seguem com suas vidas após todos os bizarros acontecimentos do passado, mas ainda falta algo: Seu filho Cliff ainda não retornou, estando há meses sob a tutela do “Tio Dudley”, que não responde a nenhuma ligação. Decidido a descobrir o que houve e trazer o garoto de volta, Buddy segue em seu encalço, mas ser atropelado e morto por um caminhão não estava em seus planos…

A sinopse acima pode soar como spoiler, mas quem acompanha as aventuras do Homem Com Poderes Animais sabe que ele é provavelmente o herói mais assassinado da mundo. De uma forma ou de outra, praticamente todos os autores que escreveram seu título desde a reformulação de Grant Morrison – incluindo o próprio – mataram e/ou mutilaram o personagem em cenas escatológicas de proposital impacto que depois de reviravoltas mirabolantes, se revertiam, trazendo-o de volta como se nada tivesse acontecido. Seja explorando a espantosa extensão de seus poderes ou inserindo-o em realidades alternativas, sua carne retorcida sempre era colocada no lugar para que ele vestisse novamente seu traje heroico e salvasse o dia. Sendo assim, porque um roteirista de renome como Jamie Delano (Hellblazer) seguiria essa mesma linha, repetindo conceitos já utilizados por seus colegas? A resposta é simples: Assim como seus antecessores, ele tinha aquela carta na manga. Sim, iria matar o Homem-Animal, mas também iria trazê-lo de volta de uma forma nunca vista, de quebra mostrando novas facetas de suas habilidades.

Inclusive, podemos dizer que esse é o grande foco do arco, mostrar do que o Homem-Animal é capaz de fazer, exibindo habilidades que ele mesmo não sabia possuir. Não que seja uma competição (não é?) mas cada autor pareceu reinventá-lo a seu próprio modo. Grant Morrison explicou seus poderes através de engenharia genética alienígena conectando-o ao Campo Morfogênico, possibilitando-o acessar as habilidades de todos os animais. Peter Milligan deu continuidade a essa ideia, abordando fatores externos sem se preocupar em explicar de novo o que já estava claro. Tom Veitch foi mais ousado, descontruindo a ideia, aproximando-o do xamanismo, o que de certa forma faria muito sentido, porém o conceito não foi bem utilizado. O que nos traz de volta a Jamie Delano, que ignorou (sabiamente) quase tudo introduzido por Veitch, mas não deixou de dar sua própria versão para a mecânica do funcionamento dos poderes do personagem. Sem descartar por completo a ideia do Campo Morfogênico, a Teia da Vida de onde o herói absorve seus poderes, ele nos lançou um olhar mais profundo usando essa experiência de (quase) morte do personagem, jogando-o no que podemos entender como o “Vermelho“, uma versão do “Verde” criado por Alan Moore para as histórias do Monstro do Pântano. Sendo assim, tal como ele é um “Elemental da vida vegetal”, Buddy seria um “Elemental da vida animal”, suposto avatar e protetor do Vermelho, conceito esse que perdura até hoje e foi utilizado em histórias mais recentes escritas por Jeff Lemire, inclusive muitas delas desenhadas pelo mesmo artista dessa edição, o ótimo Steve Pugh.

Obviamente, descobrir tais dons durante seu próprio processo de morte não foi uma tarefa fácil, envolvendo assim diversas etapas de erros e acertos, com ele lançando sua consciência no corpo de diversos animais até que enfim pudesse criar um corpo que fosse genuinamente seu. Com toda essa longa jornada para sua (literalmente) reconstrução, o papel de grande vilão ficou para o tal Tio Dudley, que aos poucos foi mostrando suas reais intenções e caráter, indo de uma simples pessoa asquerosa para uma pessoa asquerosa psicótica, obcecada pela morte.

A última história do encadernado mostra a HQ dentro da HQ, escrita e desenhada pelo filho de Buddy, Cliff, “O Kid Kanibal arruma um trabalho“, (com arte “real” de Russel Braun), onde temos o retorno da metalinguagem e uma análise dos traumas sofridos pelo garoto, cifrados por ele mesmo em sua história em quadrinhos.

Por fim, ao trazer para o título conceitos já usados por outros autores, Jamie Delano correu o risco de cair numa repetição tediosa, mas provou que podia tratar do tema ao seu modo e dar uma nova perspectiva ao personagem, sendo tão bem sucedido a ponto de sua visão permanecer válida até os dias de hoje.

HOMEM-ANIMAL – CARNE E SANGUE foi publicado no Brasil pela Panini em um encadernado com as edições 51 a 56 de The Animal Man.

Se liga no Santuário e acompanhe com a gente as resenhas de TODOS os volumes de HOMEM-ANIMAL!

Fase Grant Morrison:

O Evangelho do Coiote

A Origem das Espécies

Deus Ex Machina

Fase Peter Milligan:

Nascido Para Ser Selvagem

Fase Tom Veitch:

Réquiem Para Uma Ave de Rapina

O Senhor dos Lobos

O Significado da Carne

Fase Jamie Delano:

Carne e Sangue

Fase Jeff Lemire:

Os Novos 52

Espécie Anormal

Evolua ou Morra

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