RESENHA: SHADE O HOMEM MUTÁVEL – O GRITO AMERICANO

Por Henry Garrit

Shade veio à Terra enfrentar uma entidade vinda da Zona da Loucura, para tanto deixando seu corpo real num local seguro em Meta, seu mundo natal. Utilizando o sofisticado “Traje L”, sua mente possuiu um humano que estava prestes a morrer. Como se enfrentar a tal entidade, que ao absorver toda a loucura e paranoia dos Estados Unidos se tornou um ser abstrato conhecido como “Grito Americano”, já não fosse uma tarefa dificílima, o corpo possuído por Shade era de um serial killer conhecido como Troy Grenzer, que mantém alguns traços de sua personalidade em seu subconsciente, vindo à tona em momentos inoportunos, ainda mais porque ele se envolveu com a jovem Kathy George, filha das ultimas vítimas de Grenzer, e se tornou sua parceira nessa jornada insana.

Apesar de vários títulos de quadrinhos antecederem Shade com uma temática adulta (destaque para o Monstro do Pântano de Alan Moore e Sandman de Neil Gaiman), este foi um dos primeiros a estampar o selo Vertigo em suas capas, rompendo oficialmente sua continuidade (em maior ou menor grau) com os super-heróis do Universo DC. Posteriormente, o selo abrangeria essas e várias outras publicações em seus relançamentos.

O Grito Americano apresentado por Peter Milligan é uma história que faz mais sentido para os estadunidenses, com todas as referências e (pesadas) críticas ao país e suas infindáveis teorias da conspiração, paranoias e preconceitos (este último magistralmente representado em todo o seu absurdo racista logo na primeira história). Mas até aí, o que de fato não faria mais sentido para eles, uma vez que o produto lhes pertence, é feito por eles (apesar de Milligan ser britânico) e para eles e apenas importado por nós tanto quanto qualquer filme de Hollywood, série da Netflix ou outras tantas toneladas de quadrinhos estrangeiros que consumimos? Tendo isso em mente, é possível apreciar o texto visceral de Milligan, que mesmo escrito em 1990, continua atual em diversos pontos, inclusive sendo reflexo de problemas que vivemos hoje no Brasil em meio tantas fake news e manipulações políticas (agora através da internet), que alimentam da mesma forma uma certa histeria paranoica, uma loucura sádica e totalmente nociva que nos alcançou, nosso próprio Grito Brasileiro.

Mas estou divagando.

Apesar da premissa relativamente simples (alienígena vem para a Terra salvar o dia), o roteiro usa o personagem criado por Steve Ditko para passar os Estados Unidos à limpo, e obviamente de forma alegórica, nos apresenta os males de uma loucura institucionalizada, criada pelo fanatismo de visões unilaterais extremamente nacionalistas que não contribuem em nada para o crescimento de (qualquer) nação e apenas ergue barreiras invisíveis contra inimigos imaginários, distrações pueris que desviam o foco dos problemas concretos que realmente deveriam ser combatidos.

Do assassinato do presidente Kennedy à crueldade dos bastidores do cinema hollywoodiano, acompanhamos Shade tentando se conectar a esse novo mundo enquanto tenta cumprir a árdua missão que lhe foi imposta, ao mesmo tempo em que fragmentos de sua memória revelam que seu passado no planeta Meta esconde segredos e traições que podem mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos.

Com a mensagem poderosa de Milligan e arte impecável de Chris Bachalo, que consegue retratar de maneira formidável as manifestações da loucura no mundo real, Shade mostra que mereceu com louvor estar na vanguarda da linha adulta da DC e ostentar o selo Vertigo, uma marca que, salvo exceções, por anos seria sinônimo de rebeldia, transgressão e excelentes histórias.

SHADE, O HOMEM MUTÁVEL – O GRITO AMERICANO foi publicado no Brasil pela Panini em um encadernado com as edições 1 a 6 de Shade, The Changing Man.

Se liga no Santuário e acompanhe com a gente as resenhas de TODOS os volumes de SHADE, O HOMEM MUTÁVEL!

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