RESENHA: A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO SEIS

Por Henry Garrit

“Pensam eles que dinheiro é tudo? Que é a única medida da qualidade de vida?

Sim, pensam. E por isso são tão pobres”.

Depois de ter sua consciência banida da conexão com o Verde, o Monstro do Pântano se viu obrigado a lançar sua essência para o espaço em busca de um mundo onde pudesse criar novas raízes. Com seu corpo físico destruído, ele foi dado como morto e sua amada Abigail Cable precisou seguir em frente…

Talvez um dos pontos mais tocantes nesse season finale seja a explicação dada por Alan Moore sobre o fato do Monstro do Pântano não usar seus dons para simplesmente acabar com a fome no mundo, e a resposta a isso é um certeiro murro na boca do estômago do leitor.

Este sexto e último encadernado da coleção da Saga do Monstro do Pântano vem repleto de histórias inusitadas como é de feitio do autor, sempre imprevisível, elevando o patamar de sua narrativa e usando seu texto para lançar mensagens nas entrelinhas com camadas que atravessam os personagens e chegam até o alto escalão da DC COMICS, de quem ele já se mostrava muito insatisfeito e com o qual juraria nunca mais voltar a trabalhar, promessa esta mantida até o presente momento, mais de trinta anos depois.

Incorrendo pelo gênero da ficção científica, vemos o caminho do protagonista acertadamente se cruzar com o notório herói espacial Adam Strange nas histórias “Mistério no Espaço” e “Exilados” ao ter sua consciência interceptada pelo Raio Zeta (A tecnologia de transporte que leva Strange da Terra ao planeta Rann e vice-versa). Em meio a uma crise humanitária e política neste planeta alienígena, onde os Thanagarianos (o povo dos heróis Mulher-Gavião e Gavião Negro) propõem uma solução estranhamente bondosa considerando seu comportamento conhecidamente bélico. Adam, entretanto, percebe na chegada do Monstro do Pântano uma solução melhor para os problemas, o que os coloca em conflito direto com os guerreiros alados. Alguns pontos interessantes são levantados nessa história, onde a escassez de comida e a infertilidade do solo de Rann se deu devido a sua própria exploração desenfreada e guerras nucleares, fazendo com que mesmo uma civilização com tecnologia tão avançada, não fosse capaz de reverter a devastação que essa exploração causou. Ao tentar se conectar com o ”Verde” de Rann, o Monstro percebe que o mundo passa por uma espécie de “outono”, como se já não houvesse possibilidade de uma nova primavera, ou seja, era questão de tempo até que a vida sob seu solo árido fosse extinta. Outra questão levantada foi o comportamento do povo de Rann em relação a Adam; Apesar de precisar dele para fazer o trabalho braçal quando surge uma ameaça, pelas costas eles zombam dele, considerando-o primitivo e indigno e ainda assim ele é o amante da princesa Alanna, que verifica constantemente seu teste de gravidez. O Raio Zeta o leva embora antes que possa refletir sobre o fato, mas nós podemos questionar. Rann precisa mesmo de um herói terráqueo ou ele foi escolhido apenas para engravidar a princesa de um mundo em que há anos não ocorrem nascimentos, obrigando-os a recorrer a esse “estranho Adão”?

De volta à Terra, temos a história “Reunião“, escrita por Stephen Bissete com arte de Rick Veitch e Alfredo Alcala, onde o foco é a nova rotina de Abby como funcionária de um lar para idosos e a descoberta de uma criatura que acreditou ser seu amado, no entanto, ela jamais poderia esperar pelo reencontro que se sucedeu. Vale destacar a participação de Anton Arcane, ainda na forma deformada de uma cabeça sendo usado como bola num esporte sádico por demônios no inferno.

Alheio a estas questões, vemos o Monstro do Pântano na belíssima história seguinte, “Amor Alienígena” onde lança novamente sua consciência ao vácuo na esperança de encontrar uma raça capaz de reestabelecer sua conexão com o Verde da Terra. No entanto, ele acaba interceptado por uma consciência tecnológica que o abduz, analisando-o como um possível elemento de compatibilidade para que ela gere novos filhos… Uma história extremamente filosófica, pura ficção científica da melhor qualidade e contada sem nenhum balão de fala ou mesmo recordatório que remeta ao protagonista, ou seja, um livro ilustrado de altíssimo nível.

Obviamente que viajando pelo espaço dentro da continuidade dos super-heróis da DC, o Monstro do Pântano não poderia deixar de encontrar com algumas das mais famosas figuras cósmicas deste universo. Depois da aventura com Adam Strange, o próximo da lista seria um Lanterna Verde, mas não espere nenhum dos portadores terrestres do anel. (E para quem não sabe, Moore escreveu algumas das melhores histórias da Tropa dos Lanternas, criando personagens como Mogo, o Planeta Lanterna, e conceitos que anos depois seriam reutilizados por Geoff Johns nas sagas A Noite Mais Densa e O Dia Mais Claro, mas isso é outra história). Em J586, um planeta habitado por plantas racionais e com uma sociedade que em vários aspectos espelham (propositalmente) o comportamento humano, o Monstro do Pântano aporta em busca de ajuda para controlar sua frequência de onda de modo que possa retornar a Terra, mas sua chegada causa distúrbios inesperados ao povo local, e a necessidade da intervenção do Lanterna Verde daquele setor. Escrita por Moore a partir de uma ideia de Stephen Bissette, “Toda Carne é Erva” é uma das histórias mais emblemáticas (mesmo entre outras também memoráveis), cujo grande mérito é o cuidado do roteiro em explicar em detalhes a sociedade daquele mundo, escolhendo alguns representantes dessa raça para demonstrar as comparações com nosso modo de vida e dar a esses coadjuvantes a importância de protagonistas, o que se mostra importantíssimo quando em determinado momento da trama, ao correr grave perigo, não os vemos como meros figurantes, mas indivíduos com nomes e histórias, o que causa empatia e preocupação com seu destino.

Escrita e desenhada por Rick Veitch (que substituiria Alan Moore no cargo de roteirista imediatamente após sua saída do título), a história “Comprimento de Onda” aborda o encontro do Monstro do Pântano com os Novos Deuses, possivelmente a maior contribuição criativa do mestre Jack Kirby ao Universo DC, onde vemos que pequenos eventos cósmicos podem ter consequências avassaladoras. Veitch demonstra aqui ótima caracterização não apenas do Monstro do Pântano mas também dos Novos Deuses, retratando um Metron ambíguo, sem nenhum pudor em se curvar as vontades de Darkseid em prol de suas pesquisas, e um elemento final que inadvertidamente ajuda o Senhor de Apokolips em sua obsessiva busca pela Equação Antivida.

Alan Moore retorna preparando o terreno para os seus momentos finais, com a história “Pontas Soltas (Reprise)“, onde, como o título sugere, busca fechar as subtramas inseridas no decorrer de sua passagem pelo título, revisitando personagens vistos em diversos pontos da história e dando a eles seu destino final, alguns felizes e outros horripilantes, num retorno também ao terror no qual a revista foi calcada. O título tem uma curiosidade; Logo que assumiu os roteiros, Moore já havia escrito uma história chamada “Pontas Soltas“, onde ele fecha as questões da equipe criativa anterior e dá inicio a sua própria visão. Nessa reprise, porém, a intenção é inversa, pois ele está deixando a casa limpa para a equipe criativa que o sucederá.

A última história da edição “A Volta do Bom Gumbo“, não traz demônios do inferno ou ameaças do espaço. É a hora do lado humano falar mais alto, mesmo em se tratando do assim chamado “Monstro do Pântano”. Vemos nosso protagonista refletir sobre seu papel no mundo, e o futuro ao lado de sua amada Abby Cable. Mais algumas resoluções são apresentadas aos personagens e um debate existencial é proposto pelo autor, na forma do personagem Gene Labostrie, abordando alguns temas ligados à ganância desenfreada e obsessão pelo lucro em detrimento a valores mais simples sem os quais toda a riqueza do mundo não faria sentido. Isso fica ainda mais claro numa passagem da última página, com as palavras: ” Pensam eles que dinheiro é tudo? Que é a única medida da qualidade de vida? Sim, pensam. E por isso são tão pobres“, o que além de ser uma mensagem muito poderosa, soa como o próprio discurso do autor nos bastidores, insatisfeito com as decisões editoriais da DC e da indústria dos quadrinhos em geral, estando ainda conectado com o dilema do Monstro do Pântano sobre usar ou não seus dons para “curar” a Terra, reflorestando áreas devastadas e alimentando os famintos. Em sua reflexão, ele conclui que se fizesse isso, os homens destruiriam ainda mais, certos de que poderiam contar sempre com ele para reparar o dano. Quanto mais lhes desse, mais iriam querer em sua fome desmedida, sem qualquer tipo de consciência sobre a destruição causada. Um triste retrato da realidade.

E com este certeiro murro na boca do estômago do leitor, Alan Moore se despediu do Monstro do Pântano.

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO SEIS foi publicado no Brasil pela Panini, reunindo as edições 57 a 64 de Swamp Thing, a última da longa fase roteirizada por Alan Moore.

Acompanhe as novidades do Santuário e não perca a próxima resenha! (E tem mais Monstro do Pântano à caminho!)

Resenha anteriores de MONSTRO DO PÂNTANO:

MONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES – VOLUME 1

MONSTRO DO PÂNTANO: RAÍZES – VOLUME 2

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO UM

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO DOIS

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO TRÊS

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO QUATRO

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO – LIVRO CINCO

MONSTRO DO PÂNTANO: OS NOVOS 52

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