RESENHA: O UNIVERSO DE SANDMAN – JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER – VOL. 1 – MARCAS DA DESGRAÇA.

Por Henry Garrit

O mundo finalmente acabou na guerra da última Era da Magia, onde os maiores magos do planeta sucumbiram ante a mão de um algoz cruel e imbatível… Tim Hunter! Mortalmente ferido, John Constantine se encontra brevemente com o então adolescente Hunter, que fica abismado ao ver que sua versão adulta se tornará o destruidor do mundo. Ele parte deixando Constantine fumando seu último cigarro… Ou pelo menos deveria ser assim.

O mago John Constantine vem fazendo aparições nos outros títulos de O Universo de Sandman, o que preparou o terreno para sua incursão solo nesta nova iniciativa que resgata os elementos clássico inseridos por Neil Gaiman em sua memorável passagem pela revista dos Senhor dos Sonhos. O encadernado abre com a história “Você mesmo, mas melhor“, título sugestivo e arriscado, escolhido pelo roteirista Simon Spurrier (de O Sonhar), que sintetiza exatamente a ideia por trás desse retorno: Buscar um Constantine clássico, livre das duvidosas participações recentes no universo DC ao lado de seus super-heróis. O plano foi simples e efetivo, recorrendo diretamente às páginas da minissérie original de Os Livros da Magia, onde ao visitar diversos reinos, seu passado e futuro, o menino bruxo Tim Hunter se depara com uma linha do tempo onde ele se tornou maligno e destruiu o mundo. Na historia fica claro que aquele é um futuro evitável mas não impossível e Constantine é deixado à beira da morte enquanto Tim segue sua jornada. E é exatamente deste ponto que é resgatado por alguém literalmente tão pernicioso quanto ele, que propõe um pacto onde recebe a possibilidade de sobreviver. Obviamente sabendo que o preço não seria baixo, mas na iminência da morte, ele aceita.

E é aí que o Constantine daquela linha do tempo é lançado na realidade onde estão ocorrendo os eventos do Universo de Sandman, na época atual. Embora não esteja (propositalmente) implícito, esta realidade não parece ser a mesma do universo convencional dos super-heróis da editora, ainda que tenha vários elementos e referências dela. Além disso, esse Constantine viveu, senão todos, a maioria dos eventos de sua versão de HELLBLAZER, fato que ficamos sabendo através de diversas referências jogadas no decorrer da trama.

A história seguinte à apresentação, co-escrita por Kat Howard, com arte de Tom Fowler, “Más influências“, é uma republicação de Books of Magic 14, lançada na edição de Livros da Magia: Más Influências (saiba mais), e é importante por fazer a ponte de ligação entre o recém chegado Constantine e o contexto atual. Como não poderia deixar de ser, ele foi ao encontro de Tim Hunter, que nesta época ainda é um adolescente, e aplicou mais um teste a fim de descobrir o quanto seria seguro manter o garoto vivo depois de ter passado pela experiência de tê-lo visto destruir o mundo no futuro. Porém, as coisas nunca são tão simples e não saem como nenhum dos dois esperava.

Em seguida temos os três capítulos de “Nos Aprazíveis Prados“, com arte fotograficamente realista de Aaron Carter, misturada aos devaneios que cercam o mago, onde Constantine precisa lidar com algumas questões até se encaixar nesse novo mundo, sem o apoio de seu melhor amigo Chas. Felizmente ele logo faz alguns novos aliados que, ao que tudo indica, devem acompanhá-lo em sua jornada (“felizmente” não para eles, visto o histórico de tragédias que acompanha os amigos de John). Aqui começa sua prova de fogo e também de seu roteirista.  “Ressuscitar” um personagem com a premissa de que este seja ele mesmo mas melhor acaba gerando uma expectativa injusta. Depois de marcar presença e deixar claro que este Constantine foi trazido de uma de suas melhores fases, ignorando muitos erros recentes, a responsabilidade de colocar essa promessa em prática não é fácil. Longe dos conflitos dos outros títulos do Universo de Sandman, o mago começa a se estabelecer como um personagem capaz de reviver o sucesso de outrora, mas esse é um processo lento. Aqui ele precisa resolver uma situação com supostos anjos, sendo levado a isso por livre e espontânea pressão de um líder de gangue que também usa magia para seu proveito próprio. É interessante ver John aprendendo a usar um smartphone e outras tecnologias que não existiam nos anos noventa, e ao que parece, nem na realidade de onde veio, adaptando-as ao seu próprio estilo.

Acertadamente sem grandes batalhas épicas, lembrou uma genuína HQ das antigas de Hellblazer. Não uma das melhores, mas boa assim mesmo.

Dividida em duas partes, “Na Estica” tem um tom mais leve, até pelos desenhos mais amenos de Matías Bergara, que em alguns momentos me lembrou animações europeias, mas não deixou de ter passagens (muito) violentas e situações degradantes e absurdas. Afinal, não seria Hellblazer sem isso. Esta história nos apresenta Tommy Willowtree, um mago que, segundo ele mesmo acredita, substituiu Constantine enquanto este esteve desaparecido e agora se une a ele para “devolver o manto”. Tommy é irritantemente agradável, se é que isso é possível. Sua personalidade é oposta a de Constantine mas suas habilidades na magia, mesmo que nem tanto quanto ele pense, não são nada desprezíveis. Essa falta de compatibilidade entre eles acabou gerando uma química interessante, no melhor estilo “os opostos se atraem”, lembrando que a bissexualidade (ou seria “pansexualidade”?) de Constantine não foi ignorada nessa nova encarnação.

Silêncio” é a última história do encadernado, com Aaron Campbell de volta aos desenhos, que combinam bem mais com o estilo do roteiro, um verdadeiro conto de terror em um hospital envolvendo uma entidade misteriosa atacando os pacientes. Apesar de ser uma continuação direta e conter todos os elementos da vivência do personagem até ali, se analisada de forma independente, funcionaria sozinha e pode-se dizer que é a melhor deste volume, evocando toda a aura tenebrosa que as melhores HQs de Hellblazer costumavam ter.

Por mais que seja nítido o esforço dos autores, não temos aqui (ainda) o Constantine em seu auge, porém, sem dúvida o nível do roteiro se elevou muito, e com a condução correta, pode ser que tenhamos o velho mago de volta, e se tivermos sorte, sendo ele mesmo… Ou quem sabe, até melhor?

O UNIVERSO DE SANDMAN – JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER VOL. 1: MARCAS DA DESGRAÇA foi publicado no Brasil pela Panini em um encadernado com as edições The Sandman Universe Presents: Hellblazer 1, Books of Magic 14 e John Constantine: Hellblazer 1 a 6.

Se liga no Santuário e acompanhe com a gente as resenhas de TODOS os volumes de O UNIVERSO DE SANDMAN!

O SONHAR: VOL. 1 – CAMINHOS E EMANAÇÕES

O SONHAR: VOL. 2 – CASCAS VAZIAS

O SONHAR: VOL. 3 – UM PASSE DE MÁGICA

LÚCIFER: VOL. 1 – A INFERNAL COMÉDIA 

LÚCIFER: VOL. 2 – A DIVINA TRAGÉDIA

LÚCIFER: VOL. 3 – CAÇADA SELVAGEM

OS LIVROS DA MAGIA: VOL. 1 – TIPOS MÓVEIS

OS LIVROS DA MAGIA: VOL. 2 – HORA DAS HISTÓRIAS

OS LIVROS DA MAGIA: VOL. 3 – MÁS INFLUÊNCIAS

A CASA DOS SUSSURROS: VOL. 1 – PODER APARTADO

A CASA DOS SUSSURROS: VOL. 2 – ANANSÊ

A CASA DOS SUSSURROS: VOL. 3 – VIGIANDO OS VIGIAS

JOHN CONSTANTINE: HELLBLAZER VOL. 1: MARCAS DA DESGRAÇA

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