Artigo Especial: CRISE NAS INFINITAS TERRAS

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Por Henry Garrit (Universo Sincronia)

Um Multiverso com infinitas Terras paralelas, onde as barreiras eventualmente eram quebradas e grandes encontros entre os representantes heroicos de cada Terra ocorriam… Tudo parecia bem e em equilíbrio, até que a cronologia pareceu devorar a si mesma, com eventos se sobrepondo e deixando de fazer sentido. Histórias sendo reescritas, origens cada vez mais confusas… Era muita informação, e um caos tão absurdo que ficou cada vez mais difícil para os leitores da DC continuarem acompanhando as histórias. Pelo menos essa era a noção que se tinha do panorama na época. 

Foi então que eles decidiram colocar tudo abaixo e reformular todo o seu Multiverso, em um projeto ambicioso que tornaria todas as realidades uma só, com apenas uma continuidade, uma linha do tempo e uma cronologia supostamente seria coesa, onde todos os leitores poderiam acompanhar as novas histórias sem precisar ter décadas de conhecimento prévio de sua cronologia. Seria o grande recomeço do universo desses heróis, onde novos e antigos leitores poderiam acompanhar as aventuras de seus personagens preferidos de igual para igual. Foi um grande recomeço. Talvez não exatamente como planejado. 

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Bem, a gente sabe que isso funcionou por um tempo mas acabou não se provando tão consiste a longo prazo… A verdade é que o problema não era o Multiverso e sim a falta de criatividade dos autores em aceitar que ele existia e lidar com isso. Tanto que hoje em dia, passado tantos anos, adivinha só? O Multiverso voltou com tudo, virou até modinha, todo mundo quer ter um multiverso pra chamar de seu. Independente desse suposto equívoco editorial, CRISE NA INFINITAS TERRAS se tornou uma das maiores e melhores sagas de super-heróis de todos os tempos e independente  dos planos que motivaram sua criação não terem sido perfeitos (bem, muitas coisas deram muito certo sim, e as vendas foram astronômicas, não sejamos injustos), fato é que essa história se tornou um clássico atemporal e acabou sendo bem sucedida em um de seus pilares fundamentais, servindo de porta de entrada para novos leitores, que presenciaram o “fim de tudo o que existia” e o começo de algo (quase) totalmente novo.

 

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O Monitor parecia ser a última esperança do Multiverso, mas com a Precursora trevosa possuída pelo Antimonitor, a treta tava armada e o caldo desandou!

Com um premissa relativamente simples, conhecemos o MONITOR e sua pupila, a PRECURSORA, reunindo heróis de diversas Terras numa tentativa desesperada de impedir sua contraparte maligna, o ANTIMONITOR de destruir todos os universos tornando-se assim cada vez mais poderoso. A grande sacada foi o brilhantismo como eles lidaram com tantos personagens, de realidades diferentes e conseguiram formar uma unidade de super-heróis dispostos a dar sua vida pelo bem maior, e muitos deles realmente pereceram nessas páginas, cujo texto de MARV WOLFMAN buscou não infantilizar o enredo, provando que gibis de heróis poderiam ser dramáticos e emocionantes, obviamente beneficiado pela arte de impressionante detalhismo e majestosa narrativa visual de GEORGE PÉREZ, por sua vez arte-finalizado pelos talentosos DICK GIORDANO, MIKE DeCARLO, e me sejamos francos, o melhor entre eles, JERRY ORDWAY

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George Pérez e Marv Wofman: As mentes por trás da Crise… É TUDO CULPA DELES!

O que nos leva a pergunta: Como um gibi de super-heróis originalmente publicado em 1985 continua não apenas sendo lembrado, mas relevante e servindo como base de inspiração para muitos autores até hoje? A resposta a isso poderia ser facilmente respondida citando o talento dos artistas mencionados, mas como explicar exatamente essa alquimia perfeita de roteiro, arte e personagens trabalhando juntos no momento e hora certas? São muitos os fatores, como a época em que a saga foi criada, sua ousadia, a liberdade criativa… Mas não há como definir a exata fórmula do sucesso. Algumas coisa não se têm mesmo como explicar. Muitas sagas variantes inspiradas na CRISE foram lançadas no decorrer dos anos, (pela DC e por outras editoras) com algum sucesso ou tornando-se apenas esquecíveis, mas nunca houve nada como aqui e nunca haverá. O tempo muda, assim como as pessoas. E é preciso que surjam novas obras para os novos tempos e essas novas pessoas, sem cometer o erro de se prender ao passado, ao mesmo tempo honrando esses clássicos que sempre serão dignos de nossa apreciação. As sagas cómicas nunca deixarão de ser um tema bem vindo, mas creio que seja preciso que os autores da nova geração sejam capazes de transcender a Crise Nas Infinitas Terras e encontrar maneiras diferentes de nos fazer sorrir, chorar e sentir frio na espinha. 

Os efeitos do pós-crise foram arrebatadores. Com essa ideia de destruir o Multiverso e unificar todas a Terras para corrigir as discrepâncias na continuidade, muitos outros problemas viriam a ocorrer na linha do tempo dos personagens, mas num primeiro momento, pode-se dizer que a DC colheu ótimos frutos, publicando outros clássicos com a reformulação de sua trindade: Batman, Superman e Mulher Maravilha executada respectivamente por FRANK MILLER, JOHN BYRNE e GEORGE PÉREZ

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O era pós-crise!

Um dos maiores méritos de Crise, talvez seja o próprio fato da coragem dos autores em executá-la. O fato de criar uma história tão ambiciosa, com tantos personagens parecia loucura e poucos seriam capazes de produzi-la de forma tão promissora. De Capitão Marvel (Shazam), a Kamandi, John Constantine, Legião dos Super-Heróis, Desafiadores do Desconhecido, Homem-Animal, Capitão Cometa, Delfim, Adam Strange, Rip Hunter, Cavaleiro Atômico, Kid Flash, Renegados, Besouro Azul, Estrela Vermelha, Rapina e Columba, Doutora Luz, Doutor Oculto, Pacificador, Quartzo, Mulher Negativa, e tantos, tantos, tantos outros, centenas de heróis e vilões, fora suas contrapartes de outras Terras, sem falar nos personagens criados especialmente para a saga ou ressuscitados do limbo para ela, como Pária, Alexander Luthor, Lady Quark, Superboy Primordial, Precursora entre tantos… E os autores tiveram a proeza de manter a coesão do texto quase o tempo todo (os erros de continuidade do roteiro são tão frívolos e datados que nem são dignos de nota) fazendo a história fluir de modo a dar o destaque necessário a cada um deles em maior ou menor escala, sem nunca nos deixar perder a sensação de que sim, havia toneladas de super-heróis em trajes coloridos e poderes exóticos em toda a ambientação o tempo todo. Isso não é apenas profissionalismo, existe amor pelo trabalho realizado e genuína vontade de entregar a mais fiel e honesta história possível com esses malucos fantasiados.

 

Mesmo tendo um objetivo editorial claro, isso não impediu que a história contada fosse um verdadeiro épico dos super-heróis, ouso dizer, jamais visto antes até então. Conforme a ameaça avançava, a tensão crescia exponencialmente. Vários personagens já haviam caído em combate. Vários universos já haviam sucumbido e o cerco estava se fechando. Ninguém havia superado as mortes da Supergirl, Flash, e tantos outros que caíram em meio a esse verdadeiro genocídio multiversal, nem os heróis, tampouco os leitores. Entendam, a carga emocional produzida ali era trabalhada de modo a nos mostrar o limite máximo do herói e seu comprometimento com a causa, ao ponto de dar sua própria vida. E não era como se eles “caíssem com a nuca numa quina e morressem”. Muitos tiveram mortes agonizantes e mesmo em seus últimos momentos, seguiam firmes sem demonstrar nenhum arrependimento, apesar de – afinal, eram humanos – ficava claro que sentiam medo e isso tornava tudo ainda mais cruel.


Era preciso juntar os cacos e partir com tudo num ataque maciço contra o Antimonitor, onde numa batalha desesperada na aurora dos tempos, onde eles deveriam impedi-lo de acessar o poder descoberto por Krona (Um Oano, a mesma raça dos Guardiões do Universo, criadores da Tropa dos Lanternas Verdes, o que inclusive, creio que foi sua motivação para tal criação: Compensação pelo mal liberado por seu conterrâneo). A batalha, é claro, foi espetacular e certamente ficou na mente dos fãs que acompanhavam mês a mês o desenrolar da saga. Ora, até mesmo hoje esse sentimento persiste nas republicações em encadernados de luxo com capa dura!

A grande batalha no início dos tempos trouxe a vitória, mas com um preço terrível: Com as alterações temporais geradas, o Multiverso, segundo explicou a Precursora não foi destruído, simplesmente nunca existiu! A realidade fora reescrita, porém muitos dos heróis de outras Terras presentes nestes eventos foram de alguma forma “preservados” e continuaram existindo, apenas para descobrir que suas respectivas Terras, suas vidas e as pessoas que amavam jamais existiram. Essas Terras paralelas podem não ter literalmente sido destruídas, mas o psicológico de quem sobreviveu a elas sim.

Infelizmente o pior ainda estava por vir, pois o Antimonitor continua vivo e ávido por vingança. Uma última batalha se fez necessária, com super-heróis alquebrados mas ainda resilientes. Imparável mesmo após ter seu corpo destruído, o Antimonitor ainda avançava, obrigando Kal-L, o Superman da Terra 2  a quebrar a promessa de nunca tirar uma vida, ceifando a ameaça. Felizmente o herói teve sua merecida recompensa podendo se reencontrar com Lois – a sua Lois – graças a intervenção de Alexander Luthor, que em seguida parte com eles e com o Superboy Primordial antes que uma onda de anti-matéria os reduzisse a nada.

E assim, com um universo DC refeito, tivemos grandes acertos e terríveis erros, os quais até hoje reverberam nas publicações, onde os autores ainda criam suas “Crises genéricas” na intenção de corrigir os problemas sem perceber que a longo prazo acabam gerando novas inconsistências. A única solução possível ao meu ver, é abraçar essas falhas, aceitar o Multiverso e manter o foco em criar histórias cada vez melhores, onde o menos importante deveria ser a continuidade onde elas acontecem e sim o quanto elas vão tocar os leitores.

Quer saber mais sobre outras investidas da DC parecidas com a CRISE NAS INFINITAS TERRAS? Links abaixo!

ODISSEIA CÓSMICA

CRISE FINAL: A HISTÓRIA QUE NÃO FOI CONTADA!

OS NOVOS 52

A GUERRA DE DARKSEID

UNIVERSO DC: RENASCIMENTO

AS GRANDES MUDANÇAS DA DC COMICS ATRAVÉS DOS TEMPOS…

Um comentário sobre “Artigo Especial: CRISE NAS INFINITAS TERRAS

  1. Se existe algo mais ÉPICO do que a CRISE NAS INFINITAS TERRAS nos mundo dos quadrinhos, eu ainda não vi… Que bom poder reviver essa aventura e descobrir que mesmo depois de tantos anos ainda é tão divertida!

    Espero que tenham curtido!

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