Artigo Especial: BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS


Por Henry Garrit (Universo Sincronia)

Bruce Wayne está aposentado depois de anos combatendo o crime como o notório vigilante conhecido como BATMAN. O mundo parece ter encontrado relativa estabilidade, o que fez com que vários dos outros heróis de sua geração se recolhessem ou assumissem novos papéis para suas vidas, ainda que o Superman ainda seja visto voando por aí, como um obediente agente do governo americano. Embora Bruce pareça ter encontrado algo próximo da paz, a sombra do morcego nunca deixou de habitá-lo completamente, e quando uma onda de crimes violentos começa a assolar Gotham City, a “entidade” Batman volta a tomar conta de seu corpo, trazendo-o de volta à ação.

Não, não estou falando aqui de possessão demoníaca. Acontece que a mente de Bruce sempre foi MUITO complexa, quase como se o Batman fosse uma personalidade extra criada por ele para ajudá-lo a lidar com o trauma de ter presenciado na infância a morte de seus pais. E quando eu digo “lidar”, estou me referindo a caçar e punir todos os criminosos que conseguir, levando sua cruzada até quase as últimas consequências, uma vez que por um código moral auto imposto, ele se recusa a matar até o pior dos criminosos, mesmo motivo pelo qual ele não usa armas de fogo, o que nos leva de volta ao seu trauma de infância, uma vez que ele presenciou seus pais serem baleados. É claro que as coisas não são tão simples, e ser alguém avesso a armas e ao assassinato não significa que em situações extremas, as circunstâncias não possam obrigá-lo a quebrar seu próprio código de conduta, ainda que a contragosto.

O Batman sempre foi uma força motriz do bem, salvando o máximo de vidas possível, desvendando crimes e levando os culpados à justiça. Mas como toda moeda tem dois lados, seu retorno acaba trazendo de volta seu maior nêmese, depois de anos de apatia no Asilo Arkham, o Coringa, e ele com sua própria onda caótica de crimes, seguidos por uma série de eventos que reabrem velhas feridas em meio a disputas com a gangue de mutantes, o surgimento de uma nova Robin, além é claro, do duelo moral e físico entre Batman e o Superman.

Frank Miller talvez não soubesse disso na época, mas estava criando a mais famosa, cultuada e possivelmente uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos. Tendo recebido a liberdade de construir sua trama fora da continuidade vigente, apresentou um Bruce Wayne amargurado, idoso, ferido de todas as formas possíveis, mas ainda pronto a fazer o que fosse preciso pelo bem de sua cidade. Seja pela memória de seus pais, movido por uma obsessão paranoica, ou ambas as coisas, sempre me perguntei o que aconteceria se Bruce tivesse simplesmente feito feito terapia em vez de passar a maior parte de sua vida treinando para se tornar um dos maiores lutadores do planeta e o maior detetive do mundo.

O próprio conceito do Batman é contraditório. Um bilionário, usando uma fantasia para espancar criminosos aleatórios à noite, como se isso realmente fosse mudar o mundo, como se houvesse uma meta a ser atingida e depois de alguns anos de trabalho, o crime pudesse de fato ser extinto dessa forma. Sabemos que não é assim que funciona, mas embarcamos na fantasia dos quadrinhos e chamamos o cara fantasiado de morcego de herói, mesmo sabendo que o estado mental dele não pode ser considerado normal, forçando-o a um constante auto castigo, pois não importa o quanto ele faça o bem, ou quantos criminosos ele puna, continua preso aquela noite em que era uma criança vendo seus pais sendo assassinados. E essa é a essência básica do personagem, explorada de forma brilhante em O Cavaleiro das Trevas, ainda que a minissérie seja maior do que isso.

O estado mental do Batman é alvo de debate no enredo, colocando sua sanidade à prova em vários momentos. Como já ficou claro, a saúde mental dele é precária, mas dizer que Bruce deveria estar trancado junto aos outros internos do Asilo seria um excesso, afinal ele – teoricamente – não faz mal a ninguém, pelo menos não diretamente, embora as consequências de seus atos, por mais nobres e altruístas que sejam, inevitavelmente causem efeitos colaterais e essa é uma das questões levantadas por Miller ao criar seu debate fictício com especialistas na tevê de Gotham. Embora aprofunde ainda mais a psique do personagem, a história ainda não é sobre isso. Vou teorizar e dizer que O CAVALEIRO DAS TREVAS é sobre o rompimento da temática pueril dos quadrinhos com o selo de ética que limitava e censurava os autores, tolindo suas ideias e restringindo sua arte a um nicho isento de questões realmente relevantes, impedidos de tratar de temas políticos e obrigados a seguir um padrão de amenidade sem qualquer possibilidade de exceder essa regra. É claro que não foi Frank Miller sozinho com seu Cavaleiro das Trevas a se levantar contra essas restrições, muitos autores corajosos já trilhavam por esse caminho há tempos, mas sua trama foi emblemática, incisiva, arrebatadora.

Era o Batman.

O obra nos mostra o que seria possivelmente o último esforço do Morcego em fazer as pazes consigo mesmo e com a cidade que lhe concebeu, nutriu e o quebrou. A relação de Bruce Wayne e Gotham, e como a existência do Batman foi uma resposta a toda a dor que recebeu, tornando-se uma lenda, um patrimônio cultural e nos final das contas, morrendo deixando o mundo tão ou mais caótico do que antes, afinal, embaixo da máscara havia um ser humano e não um deus… Embora deuses existam, usem capas e sejam capazes de parar balas com as mãos, seu grande feito foi colocar tal divindade de volta ao convívio dos homens, recuperando sua essência heroica. E com a redenção do Superman, todos os outros o seguiriam.

Mas Bruce não morreu. O que foi ótimo e sempre deu brecha para uma continuação, o que não significa que ela precisaria existir. De qualquer modo esta veio na forma de Cavaleiro das Trevas 2 (The Dark Knight Strikes Again, no original), sequencia direta, mas com pautas diferentes. A primeira mudança a se notar é estética, a arte de Miller antes arte-finalizada por Klaus Janson era estilizada mas firmava um acordo de suspenção da descrença com os leitores. O texto por vezes falava tão mais alto que não era importante certos exageros no traço. Já a segunda versão quebra esse pacto, uma vez que o tema abordado não é tão profundo quanto o da minissérie original, (ainda que tenha recebido forte influência do ataque às Torres Gêmeas durante sua concepção, o que mudou o tom do roteiro segundo o próprio Miller) a arte perdeu qualquer compromisso de fidelização com a realidade, se assumindo caricata, com cores berrantes e linhas mais simples, o que pode ser entendido como uma crítica do autor a super valorização da imagem, quem sabe uma alfinetada a própria “Image Comics” que despontou nos anos 90, com personagens dotados de músculos impossíveis, uniformes colantes exageradamente coloridos e mulheres hipersexualizadas, sem deixar de fora claro a Marvel e o própria DC.

Ainda que isso possa ser lido nas entrelinhas, também é preciso ter em mente que as vezes uma história de super-heróis é só uma história de super heróis, sem grandes pretensões de revolucionar a cultura humana. Aqui ele decide trabalhar com outros heróis da DC, apenas mencionados na minissérie original, e nos revela alguns de seus segredos, o paradeiro e motivo de seu desaparecimento e o destino de outros, e ainda que nem todas as respostas sejam agradáveis, a única que realmente me incomoda foi aquela dada ao Robin. E mesmo tendo consciência de que é (correndo o risco de ser redundante) drasticamente inferior ao clássico, gosto da história, já tendo-a lido ciente de que certamente  não alcançaria o padrão da primeira, e livre do peso dessa expectativa, me diverti com ela.

A continuidade do Cavaleiro das Trevas ainda seria explorada novamente, dando destaque a Lara, filha do Superman com a Mulher Maravilha na minissérie Cavaleiro das Trevas 3: A Raça Superior (leia a resenha AQUI), nos especiais Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada com roteiro Miller com Brian Azzarello e arte de John Romita Jr, Superman: Ano Um, roteiro e arte de Miller e Romita Jr. e Cavaleiro das Trevas: A Criança Dourada, escrito por Miller com arte do brasileiro Rafael Grampá.

A despeito de todas as críticas, principalmente no que se refere as suas continuações, O CAVALEIRO DAS TREVAS fulgura como um dos clássicos eternos entre as publicações do gênero, sendo impossível negar sua importância e influencia para os quadrinhos.

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Um comentário sobre “Artigo Especial: BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS

  1. Algumas obras são eternas… Quanto a suas continuações… Bem, vamos apenas dizer que existe público pra tudo!

    Não deixem de acompanhar todas as publicações especiais em comemoração aos 10 anos do Santuário!

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