Artigo Especial: WATCHMEN

Por Henry Garrit (Universo Sincronia)

QUEM VIGIA OS VIGILANTES? 

Estados Unidos, década de 80. Num mundo onde vigilantes mascarados foram considerados ilegais e a sociedade vive sob a sombra da guerra fria, um plano ambicioso é colocado em prática para alterar a política mundial e evitar que uma guerra nuclear venha a dizimar o planeta, envolvendo uma complexa trama de mortes e manipulação. Quando o antigo vigilante conhecido como “Comediante” é assassinado, uma investigação é iniciada por um dos poucos ainda na ativa, “Rorschach” que acredita estar lidando com um assassino de mascarados. Porém os rumos dessa investigação ganham proporções muito maiores do que ele poderia imaginar, o dia do juízo final parece cada vez mais perto, e mesmo o poderoso “Dr. Manhattan”, o único vigilante que realmente possui super poderes e é praticamente um deus, pode se ver impotente diante dessa ameaça.

IMPORTÂNCIA

Algo importante a se dizer sobre Watchmen, é que essa obra redirecionou os quadrinhos de super-heróis e desconstruiu os vigilantes mascarados, mostrando-nos seu lado humano, vulnerável e falho. Tocou em feridas que normalmente eram evitadas nos quadrinhos, tratando sem medo ou pudor da política e questões sociais da época. Mas, mais do que isso, nos deu uma narrativa poucas vezes vista antes no gênero, com diversos elementos literários, figuras de linguagem e toneladas de referências, fossem elas escritas ou através de símbolos, conectando o enredo de forma tão orgânica ao ponto de ser um atrativo extra da leitura, fazendo-nos buscar significado nos detalhes mais simples. O empenho dos autores foi monumental, uma vez que cumpriram com maestria o que parecia ser sua proposta: Refinar os quadrinhos a um nível tão alto que não poderia mais ser ignorado por outras mídias que a tratavam como um subproduto de baixo valor artístico. Sob esse aspecto, Watchmen não apenas é uma HQ genial, mas criou um novo patamar de profissionalismo, e para o bem ou para mal, mudou tudo o que viria depois.

ORIGENS

A ideia inicial era usar os personagens da Charlton Comics, então adquiridos pela DC, mas por questões editoriais, os mesmos não estavam disponíveis. Para compor a história, Alan Moore e Dave Gibbons criaram versões destes personagens e os colocaram num universo próprio, o acabou concedendo a trama uma autonomia muito maior, com total liberdade criativa e nenhuma amarra com a continuidade da DC. Assim, o Questão virou Roscharch, Besouro Azul, Coruja, Capitão Átomo, Dr. Manhattan, Sombra da Noite, Espectral, Pacificador, Comediante e Thunderbolt, Ozymandias. Na maioria das vezes esses “desvios editoriais” acabam prejudicando a produção da obra, impedindo que sejam exploradas em sua totalidade, mas nesse caso, creio ter ocorrido o contrário. É difícil imaginar esses personagens de outra forma, muito menos supor que se teria condições de ter a mesma complexidade.

Os heróis da “Charlton Comics” inspiraram os personagens de Watchmen.

SÉRIES DERIVADAS

Durante anos Watchmen permaneceu intocado, isolado de qualquer interferência com outros quadrinhos da DC, mas depois de algum tempo as coisas começaram a mudar. Até porque, com o rompimento de Alan Moore com a DC Comics e com praticamente toda a indústria de quadrinhos, correr o risco de “usurpar” a obra dele seria moralmente questionável, pra dizer o mínimo. Isso, é claro, não impediu a DC. Obviamente não seria fácil produzir algo com esse altíssimo nível de qualidade, mas, passado um tempinho, eles tentaram… E olha… Quer saber se foi bom? Continue lendo.

A polêmica minissérie “Antes de Watchmen” revisitou o passado desse universo, como diz o próprio nome, contando histórias pregressas ao evento principal. Muitos fãs vibraram de felicidade, enquanto outros acharam uma heresia. Alan Moore, certamente não ficou nada feliz, mas a série teve as bênçãos do desenhista cocriador Dave Gibbons. Por se tratar de uma empreitada explorando o passado de vários personagens com equipes criativas diferentes, o projeto teve altos e baixos, mas no geral (desculpa Moore), gostei do resultado, ainda que algumas edições tendo sido muito fracas.

“Antes de Watchmen: Coruja”

Se “Antes de Watchmen” foi considerado uma heresia, o lançamento da série “Relógio do Juízo Final” (Doomsday Clock no original) de Geoff Johns e Gary Frank deve ter sido visto como uma blasfêmia imperdoável por alguns fãs, e feito Moore espumar de raiva (ou não… De boa, pra mim, eu acho que a essa altura ele nem liga mais). Tendo um prelúdio com o especial Batman/Flash: O Bóton, história que vinha sendo arquitetada desde o início do “Renascimento” da DC. O grande diferencial dessa obra é que ela se passa depois de Watchmen e coloca os personagens em contato com os super-heróis da DC, com o desafio de fazê-los sobreviver ao crivo dos fãs.

“Batman/Flash: O Bóton”

Confesso que achei que essa seria uma péssima ideia quando li os primeiros anúncios. Geoff Johns já foi acusado de “revirar o lixo” de Moore quando resgatou várias de suas ideias antigas para nos títulos dos Lanternas Verdes, culminando nas sagas “A Noite mais Densa” e “O dia Mais Claro“, mas dessa vez ele tinha ido longe demais. Para minha surpresa, entretanto, a história é muito boa e consegue dar uma explicação plausível para esse “encontro dos dois mundos”, que apesar dos pesares acabou sendo melhor do que se esperava, embora não creio que nenhum desses “spin offs” seja “cânone”, (posso humildemente estar enganado aqui, mas duvido muito mesmo que sejam), deixando nosso querido Watchmen original isolado em sua inigualável complexidade. Prefiro pensar nessas histórias como linhas de tempo separadas no Multiverso.

“O Relógio do Juízo Final” (Doomsday Clock)

Cabe mencionar o especial Pax Americana, com roteiro de Grant Morrison e arte de Frank Quitely, criada dentro do projeto Multiversity, onde diversos personagens foram mostrados em histórias através do (adivinhem só) Multiverso, cada uma em sua continuidade única. Em Pax Americana, Morrison usa os antigos personagens da Charlton Comics que inspiraram os vigilantes de Moore e Gibbons. Assim, temos, o Besouro Azul, Questão, Sombra da Noite, Pacificador e Capitão Átomo entre outros, numa narrativa com a mesma estética de Watchmen, recurso usado propositalmente a fim de referenciar a minissérie.

“Multiversity: Pax Americana”

Por fim (se é que existe mesmo um fim), temos uma nova minissérie protagonizada por Rorschach, com roteiros de Tom King e arte de Jorge Fornés, onde eles apresentam uma versão do personagem que segundo os próprios, “homenageará e se distanciará de Watchmen ao mesmo tempo”. Situada 35 anos depois do quadrinho original, a verdade sobre o incidente com a “lula gigante” é de conhecimento público, o que aproxima essa história do enredo da série da tevê e deixa claro que que não tem conexão com a história de Doomsday Clock. E apesar de escolher usar o mesmo nome e uniforme, veremos uma pessoa sob a identidade de Rorschach, com uma ideologia totalmente diferente do original.

“Rorschach” (2020)

ALÉM DOS QUADRINHOS

O filme de Zack Snyder desafiou a lógica ao tentar transportar Watchmen ao cinema, mas surpreendeu ao ser muito fiel a trama original. Fato é que que dificilmente uma adaptação conseguiria transmitir exatamente o mesmo sentimento, as mesmas sutilezas e a mensagem idêntica da obra original, e isso nem deve ser buscado, pois não creio que esse seja o objetivo. Por mais que se trabalhe tendo como base a obra de outro autor, cada artista tem uma visão pessoal e sua própria identidade artística. Visualmente o filme agrada por trazer a atmosfera dos quadrinhos, mas é praticamente impossível reproduzir o conceito de algumas figuras de linguagem usadas na literatura, e esse “efeito especial” Hollywood ainda não conseguiu replicar pelo simples motivo material que separa um filme de um livro… São experiências distintas. O final do longa é bem diferente dos quadrinhos apesar dos citados esforços deste em ser fiel ao original, porém, essa diferença foi coerente dentro da narrativa e fez sentido naquele contexto. Vou dar um exemplo fora da curva, por coincidência usando um personagem cocriado por Alan Moore: Constantine. O filme estrelado por Keanu Reeves tomou inúmeras liberdades criativas ao original, desde a características básicas do protagonista até seu modus operandi… Mas olha, eu gosto muito do filme! Consigo separar da versão do Constantine dos quadrinhos, compreendo os desafios de uma adaptação… E na dúvida, é só jogar tudo no Multiverso!

“Watchmen” de Zack Snyder (2009)

Seguindo nessa vibe, chegamos em 2019, onde tivemos a série de tevê baseada em Watchmen. Não vou mentir, adorei cada episódio. Se produtos como algumas edições de “Antes de Watchmen” foram desnecessários, a série mostra que tinha uma excelente história para contar sobre esse universo. Situada 35 anos depois dos eventos do quadrinho original, temos um vislumbre de como o mundo seguiu em frente depois daqueles cataclísmicos acontecimentos. É importante dizer que embora referencie em alguns momentos o filme de Zack Snyder, sua trama continua diretamente a história dos quadrinhos, então esqueça o final do filme e volte para a coisa da lula gigante explodindo em Nova York! É muito difícil afirmar se um spin off é ou não cânone, até porque as donas das marcas podem a qualquer momento mudar de ideia e dizer: “Olha isso é muito legal, mas é fanfic, supere”. Porém, no caso da série de tevê… Se não for cânone, deveria ser.

“Watchmen” HBO (2019)

ROMPIMENTO

A relação de Alan Moore com a DC e com a maioria das editoras de quadrinhos foi rompida há anos, e ele já anunciou sua aposentadoria, por isso a possibilidade de que ele volte a trabalhar na indústria é provavelmente zero, logo nunca saberemos que outros planos ele tinha em mente (apesar de já ter declarado em entrevistas que jamais imaginou qualquer sequencia para Watchmen). Fato é que que antes desse rompimento, Moore havia começado a estruturar uma grande saga com todos os personagens da DC chamada “Twilight” (um possível “Crepúsculo dos Super-Heróis“?). Há boatos de que esses roteiros iniciais teriam inspirado Mark Waid e Alex Ross a criar a minissérie “O Reino do Amanhã“, e sendo ou não verdade, com certeza essa é outra grandiosa obra dos quadrinhos.

Esperemos que bons ventos surjam no futuro e nos agraciem senão com “substitutos” de Alan Moore, ao menos com autores tão inspirados quanto, e dispostos a nos trazer novos clássicos dignos de Watchmen!

Quer ler mais sobre os trabalhos de Alan Moore? Links abaixo!

WILDCATS – DE VOLTA PARA CASA

WILDCATS – GUERRA DE GANGUES

PROMETHEA VOL. 1

PROMETHEA VOL. 2

PROVIDENCE

NEONOMICON

SUPREMO – A HISTÓRIA DO ANO

FASHION BEAST

O QUE ACONTECEU AO HOMEM DE AÇO?

TOM STRONG

V DE VINGANÇA

A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO

QUEM TEM MEDO DO ALAN MOORE?

3 comentários sobre “Artigo Especial: WATCHMEN

  1. Existem boatos de que essa resenha demorou 10 anos pra ser escrita porque o autor se sentia intimidado pela obra! Ops, não era pra ter dito isso? Foi mal…

    Não deixem de acompanhar todas as publicações especiais em comemoração aos 10 anos do Santuário!

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