RESENHA: PREACHER – VOL. 9 – ÁLAMO

Por Henry Garrit (Universo Sincronia)

“Não leve desaforo de idiotas… E julgue as pessoas pelo que elas são por dentro, não pela aparência. E faça aquilo que é certo. Você tem que ser um dos mocinhos, filho. Porque bandido já tem demais.”

Um anjo se apaixonou por um demônio, ato inédito na criação e totalmente reprovado tanto pelo Céu quanto pelo inferno, que seguem em sua guerra milenar. Dessa união, surgiu Gênesis, o primeiro de sua espécie. O Céu tentou aprisioná-lo, mas ele fugiu para a Terra, onde se alojou no corpo do pastor Jesse Custer, concedendo-lhe o dom da palavra de Deus, ou seja, todos são obrigados a fazer tudo o que ele manda. Tudo.

E esse seria um belo de um resumo da série Preacher, mas ela está longe de ser “apenas” isso.

É, a vida do Reverendo nunca foi fácil. Marcado por tragédias familiares, crimes e as mais cruéis privações, é com tristeza que anuncio que sua jornada chega ao fim neste volume, deixando eternizada a obra visceral de Garth Ennis (roteiro) e Steve Dillon (arte), – com as capas impecáveis de Glenn Fabry – , onde trataram sem medo temas polêmicos envolvendo a fé e o caráter humano, nos mostrando de forma nua e crua o pior e o melhor desses mundos. Embora faça uma dura crítica ao fanatismo religioso, consegue a proeza de fazê-lo de forma contundente mas sem a pretensão de… Bem, pregar, nada, inclusive o ateísmo. Ao contrário, o enredo de Preacher nos mostra que não apenas Deus, o Céu e o inferno são reais como também usa um vampiro com um dos protagonistas da série, além de muitas outras ocorrências sobrenaturais. Alternando cenas de violência com humor escrachado, os autores apresentam sua posição, expondo de forma alegórica a hipocrisia que existe nos salões secretos do alto escalão de grandes instituições religiosas e como usam da fé das pessoas para manipulá-las. Entretanto, a grande reflexão colocada pela dupla de criadores, não é a existência ou não de Deus, mas na hipótese de sua existência, o questionamento de como pôde deixar o mundo ser um lugar tão injusto, cruel e desigual sendo Ele um Deus de amor. E é essa a indignação que move Jesse, colocando-o numa verdadeira cruzada em busca do Todo Poderoso a fim de obter essa resposta.

Constante e eficiente, a arte de Steve Dillon (que ilustrou toda a série, exceto edições especiais fora do título mensal) manteve toda a atmosfera do roteiro, que além da metafísica, trabalha de forma primorosa o desenvolvimento e as relações dos personagens, muitas vezes nos afastando do foco para contar histórias paralelas que enriquecem ainda mais a trama, o que com certeza é um dos fatores que contribuiu para sua bem sucedida execução, fazendo da série um dos memoráveis clássicos do selo Vertigo.

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILER!

Continue daqui por sua conta e risco!

Conforme vimos no quinto volume da série, Jesse foi capaz de acessar parte do conhecimento da entidade Gênesis com a ajuda de um feiticeiro Vodu, (feito que ele aprimorou mais tarde, utilizando as alucinógenas sementes de peiote) e com essas informações, formulou uma estratégia para lidar com a ameaça do Santo dos Assassinos e enfim resolver sua pendência com Deus de uma vez por todas, ainda que continuar respirando ao fim de suas ações não fizesse parte desse plano.

Caso algum leitor tenha a falsa impressão de que as coisas estão acontecendo rápido demais, cabe dizer que o gran finale foi preparado cuidadosamente nos capítulos anteriores, deixando à cargo deste volume a tarefa de “apenas” fechar todas as pontas soltas até que a conclusão se revelasse. Assim, temos o resgate de vários personagens que passaram pelo caminho de Jesse no decorrer da história, tendo maior ou menor impacto, como os desajustados adefins (uma classe de anjos) Fiore e De Blanc, os inconfundíveis Cara de Cu e Lorie, os impagáveis Featherstone e Hoover, entre outros, sem obviamente deixar de nos mostrar o destino da organização de fanáticos psicóticos conhecida como Graal e a batalha épica de Jesse contra seu ex-amigo Cassidy (após o vampiro se aproveitar de Tulipa quando estes pensavam que ele estava morto); Seu arqui-inimigo, o famigerado Sr. Starr, recordista de situações ao estilo “não acredito que eu estou vendo isso“; O mortífero e inescapável Santo dos Assassinos; A entidade Gênesis e enfim o próprio Deus.

aae772fb32c4d2b0441529917ad7e715._SX1280_QL80_TTD_

Em meio a tramas e traições, pactos profanos e tentativas de redenção, Jesse engana Tulipa mais uma vez, deixando-a de fora da ação, ainda que com a intenção de protegê-la, o que só a deixa muito furiosa. Ao descobrir os planos de Jesse, a mulher parte para a batalha como uma verdadeira máquina de matar e embora, seja compreensível que ele temesse pela vida da mulher que ama, foi burrice não tê-la levado consigo desde o começo. É ela quem dá fim a Starr, embora não antes de impedi-lo de cometer suas últimas atrocidades, o assassinato de Featherstone e Hoover. Enquanto Jesse tem seu acerto de contas com Cassidy, os ex-amigos não sabem que enquanto lutam, ambos tramaram nos bastidores para benefício mútuo: O vampiro fez um acordo com Deus, a fim de impedir que Jesse usasse a entidade Gênesis contra Ele, desde que o pastor – e ele próprio – saíssem vivos no final, enquanto Jesse fez um pacto com o Santo dos Assassinos, aceitando morrer para que Deus pudesse enfim voltar ao Paraíso, onde ele poderia enfim ter sua vingança.

Como em um velho filme de faroeste, com direito ao herói e a mocinha cavalgando em direção ao nascer do sol, temos no desfecho a vitória da honra e a recompensa dos justos, bem como o merecido castigo para os ímpios, ainda que novas chances também sejam concedidas.

Contemporâneo, PREACHER merece ser relido hoje e pelas gerações futuras, mantendo viva e afiada nossa capacidade de questionamento e indignação.

PREACHER: ÁLAMO encadernado que encerra a trajetória da saga, foi publicado no Brasil pela Panini reunindo as edições originais 59 a 66 de Preacher.

E com isso o Santuário tem a honra e o prazer de anunciar que cobriu as resenhas de TODOS OS VOLUMES de PREACHER! Acompanhe essa trajetória nos links abaixo e MUITO OBRIGADO a todos que prestigiam nosso trabalho!

PREACHER – VOL.1 – A CAMINHO DO TEXAS

PREACHER – VOL.2 – ATÉ O FIM DO MUNDO!

PREACHER – VOL.3 – ORGULHO AMERICANO

PREACHER – VOL.4 – HISTÓRIAS ANTIGAS

PREACHER – VOL.5 – RUMO AO SUL 

PREACHER – VOL. 6 – GUERRA AO SOL

PREACHER – VOL. 7 – SALVAÇÃO

PREACHER – VOL. 8 – ÀS PORTAS DO INFERNO

Um comentário sobre “RESENHA: PREACHER – VOL. 9 – ÁLAMO

  1. Ufa… Mais uma série completa com todos os números resenhados! Deu trabalho, mas foi feito com muito amor! Espero que todos tenham curtido! E não se esqueçam, neste mês de aniversário de 10 anos do Santuário, estamos publicando diversos artigos especiais! Não deixem de conferir!

    Curtir

Deixe uma resposta para Santuário HQ Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s