Artigo Especial: NOVOS TITÃS – COMO CONSTRUIR UM BOM VILÃO!

Por Venerável Victor Vaughan

Provavelmente essa é uma das mais cultuadas passagens de uma equipe criativa por uma revista em quadrinhos em todos os tempos; nela sendo apresentados uma variedade de heróis e vilões maravilhosos, com os quais, na falta de qualquer um deles (com exceção do alienígena Azrael, para quem lembra daquele chorão), essa HQ não seria tão perfeita como foi. Os autores durante anos foram construindo uma grande narrativa, recheada de pequenos enredos e pontas (que nunca ficariam soltas) E no fim de tudo… essa foi uma história totalmente dedicada à Ravena e seu pai.

Ravena é a primeira presença que se sente, não digo em New Teen Titãns #1 (Novembro de 1980), mas na prequela em “DC Comics Presents #26” (revista publicada mensalmente nos EUA entre 1978 e 1986), Ravena é a responsável por juntar novamente uma equipe de Titãs e a avisar a comunidade heroica da ameaça que sua família representa, além dos desafios impostos para vencê-la.

Aqui é possível ver muito claramente que essa encarnação dos jovens heróis não é mais a de simples ajudantes mirins (sidekics) dos medalhões da Liga da Justiça. Esses heróis agora eram o portal do leitor para mundos e aventuras nunca antes exploradas na editora.

Na primeiríssima edição de Novos Titãs (como a revista foi batizada aqui no Brasil)  a equipe é reunida para resgatar Estelar das garras dos alienígenas Gordanianos, mas ao fim da edição, o discurso da empática Ravena, avisando a equipe sobre um mal muito maior que chegaria na Terra, sedimentou o tom épico que essa revista teria daí por diante: uma série de grandes arcos interligados que juntos contariam uma novela espetacular – algo totalmente oposto ao que a revista em seu volume anterior ou mesmo o título da Liga da Justiça oferecia.

Essa encarnação dos jovens heróis da DC estava totalmente no nível dos Fabulosos X-Men de Chris Claremont na Marvel, o que provocaria uma disputa espetacular de vendas e incremento da qualidade entre esses dois títulos por toda primeira metade dos anos oitenta, conquistando a crítica, os corações e as carteiras de seus fãs.

Já nas três edições iniciais da revista, os Titãs enfrentariam o Exterminador pela primeira vez e teriam várias “DRs” com o Doutor Luz e seu Quinteto Mortal, mas a cada passo que eles davam, mais e mais se aproximavam de um confronto inevitável com o maior desafio (Darkseid naquela época pelo menos, que os novos deuses me perdoem) até então no Universo DC: Trigon, o pai de Ravena.

Como definir Trigon? Ele nada mais é do que um incrivelmente poderoso demônio extradimensional de um plano de realidade construído como repositório de todo o mal do nosso – e de outros – universos. Que matou sua mãe e todos ao redor ao nascer, destruiu seu planeta natal ainda na infância e conquistou milhares de outros já na fase adulta. Em algum momento ele foi trazido para Terra, por meio de um ritual satânico e disfarçado de humano, seduziu uma jovem, que engravidou dele e deu a luz à nossa amada heroína Ravena… depois (ao fim do “rolê”) voltou para sua dimensão e de lá segue ocasionalmente assassinando qualquer um que ameaçasse a vida de sua filha.

Trigon é um personagem impressionante e ameaçador criado pela combinação da experiência de Marv Wolfman com a narrativa de histórias de terror pretéritas recorrentes no gênero na época e um estonteante e dinâmico visual único concebido por George Pérez – um dos maiores desenhistas da arte sequencial de todos os tempos, em sua melhor fase.

A história: Ravena fracassa em conseguir o apoio da Liga da Justiça para enfrentar seu pai – principalmente por culpa da feiticeira Zatanna, que sente nela um grande potencial para o mal. Então ela busca a ajuda dos jovens Titãs – que na época não eram uma equipe ainda – e na quinta edição da revista enfrentam Goronn, um pau mandado de Trigon, que eles com muita dificuldade derrotam – não posso afirmar se foi de modo consciente ou inconsciente que Wolfman se inspirou na dinâmica Surfista-Prateado/Galactus (do rei Jack Kirby e Stan Lee) aqui, mas funcionou de tal forma.

Depois de serem derrotados em seguida por Trigon, Ravena se sacrifica pela vida de seus amigos e concorda em voltar com seu pai para sua dimensão original, se ele concordar em deixar nosso mundo em paz. Na edição seguinte os Titãs vão ao resgate de sua companheira de equipe, levam outra surra de Trigon , mas são capazes de resgatar Ravena quando a mãe dela, Arella, basicamente distrai Trigon o suficiente para que os heróis atravessem de volta o portal para a Terra e o fechem pelo lado de cá de nossa dimensão.

Então o que é importante ressaltar aqui é que literalmente os mocinhos não venceram a batalha! Eles nem ao menos chegaram perto disso. Eles só foram capazes de salvar o planeta porque basicamente um deles se rendeu para o vilão e assim conquistaram depois uma “pequena” vitória , não por derrotarem o cara mau, mas por colocarem o rabo entre as pernas e baterem a “porta” na cara da grande ameaça, mantendo o conquistador demoníaco longe por mais um tempinho…

O mais importante a assinalar aqui que nesse grande épico escrito por Wofman e Pérez é o seguinte: a equipe escapou dele na edição #6 do primeiro volume de sua revista, publicada em abril de 1981 e ele só voltou a aparecer realmente no final de seu segundo volume, três anos depois em agosto de 1984. (tempo editorial real Estadunidense)

No intervalo entre essas duas edições onde Trigon aparece, os Titãs enfrentaram os deuses do Olimpo, encontram a Patrulha do Destino, foram dar um rolê no espaço com os Ômega Men, aceitaram um novo integrante na equipe, perderam dois de seus membros fundadores – um deles voltando logo depois sob uma nova identidade que até hoje é cânone- foram traídos por essa nova integrante que antes receberam e viram uma outra se casar. Eles enfrentaram o Exterminador três vezes, duas vezes o Irmão Sangue, A Irmandade Negra e o Quinteto Mortal uma meia dúzia de vezes e desmantelaram a odiosa organização C.O.L.M.E.I.A. que vinha infernizando a vida dos nossos heróis por quase dois anos de publicações (ou pelo menos pensaram…Lembram da Sociedade Gnu?)

E todas essas aventuras aconteceram sem a necessidade de Wolfman e Perez de trazerem de volta tão cedo em carne e osso o mais poderoso adversário dos Titãs, mas não se enganem… o cabra estava representado em cada edição de forma subliminar através de pistas visuais na arte da revista. Sem contar a decadência crescente na aparência de Ravena a cada arco de histórias, sintoma da contínua possessão demoníaca… Sim meus caros, eles tinham um plano orquestrado em mente o tempo todo desde o início e os criadores nunca se desviaram dele.

Quando chegou finalmente a vez de Trigon brilhar no segundo ato desse épico, não havia a necessidade de revitalizar sua imagem ou dar um up grade em sua imponência e poderes, afinal ele nunca tinha sido derrotado pela equipe. Ao contrário, descobrimos que tudo que vimos de seu poder, nada mais era que uma fração de seu real potencial. O vilão faz um triunfal retorno, derrotou sem suar a Liga da Justiça e transformou a Terra em um mundo pedregoso, árido… morto – quem leu essa edição, deve ter na memória a chocante imagem de um Super-Homem transformado em pedra, com a expressão de seu rosto em um grito de eterna agonia, além da visão desoladora de como o mundo estava transformado pela simples presença do pai de Ravena.

Os Titãs eram a única esperança da humanidade, não por serem a mais poderosa super equipe que existia, mas por causa de sua ligação emocional com a Ravena: essa era a única fraqueza de Trigon, a filha que ele acreditava que sobreviveria à ele para ser sua herdeira e que de uma forma deturpada, era o motivo de sua afeição.

Esse é um grande ponto nessa imensa construção de narrativa de Wolfman e Pérez. Não se trata de quanto poder você pode ter, se trata de estar lá para apoiar seus amigos e família. Justamente por conta dos Titãs se dedicarem à proteger os seus, eles são os mais indicados à salvarem o mundo quando ninguém mais é capaz. Mas eles ainda assim não conseguiram…

Trigon é uma ameaça muito poderosa para o Titãs e Ravena foi finalmente por completo corrompida por ele e está ao seu lado. Ao invés de matar os ex-companheiros de sua filha, o demônio os infecta com o seu mal, criando assim sinistras cópias de quatro olhos de Asa Noturna, Moça Maravilha, Estelar, Cyborg, Mutano e Kid Flash (além de um Jericó em estado de choque), fazendo com que nossos heróis vivam pesadelos onde finalmente seriam corrompidos em suas almas e por fim seriam soldados de sua campanha por dominação multiversal.

O que não esperávamos era que essas versões corrompidas de nossos heróis, uma vez consolidadas teriam a capacidade de atacar Ravena e destruir seu corpo mortal na frente de seu pai – coisa que nunca teriam coragem de fazer antes. Dessa forma liberando o poder máximo da heroína e o derrotando, mesmo não sendo essa uma estratégia formulada por nenhum deles. Analisando por essa lógica, foi o próprio Trigon quem criou os meios para ser destruído.

Entra em cena no último ato dessa epopeia mais um recurso narrativo usado para contar anos atrás a origem da Ravena: Azarath – uma dimensão separada da Terra, de plena paz, habitada por monges pacifistas que abdicaram da vida em nosso planeta para viver ali em harmonia. O lugar onde a menina Ravena cresceu e aprendeu a utilizar seus poderes e que me parece, tanto Azarath quanto os azarathianos, uma  interessante referência do senhor Wolfman aos Cátaros de Languedoc no sul da França (para quem nunca ouviu falar neles, vale a pena procurar saber, seu ápice se deu no século XI e no fim do texto ficam as referencias bibliográficas.)

As almas de Azarath, que representavam todo o lado bom que inadvertidamente no passado criaram Trigon, estavam manipulando a ação do arco o tempo todo por debaixo dos panos, garantido que os Titãs fossem possuídos pela maldade do antagonista e que uma vez livres do senso de ética e moral, matassem Ravena – seu corpo físico – dessa forma ela se tornaria um ser imaterial e de pureza absoluta, poderosa o suficiente para destruir seu pai. Ela assim o faz e logo em seguida desaparece em um flash de luz… não antes de sorrir pela primeira vez desde que apareceu para a equipe anos atrás, só reaparecendo novamente mais ou menos dezessete edições depois. E Trigon já era (foi pro saco).

Muita coisa pode ser discutida após tudo isso: Pra começar, como os Titãs perderam muito mais do que ganharam após essa batalha, como nenhum ato realmente heroico deles foi suficiente para derrotar o vilão. Sim, Trigon foi derrotado mais uma vez – e pela última vez até então – pelo sacrifício de Ravena e essa foi a última vez que de fato – até então – nós veríamos o camarada de quatro olhos. A quinquagésima edição dessa maravilhosa revista de Wolfman e Pérez – e também a última de suas parcerias regulares – acabaria com a derrota do vilão apresentado na primeira edição. Um círculo perfeitamente fechado.

Agora vamos combinar caros irmãos nerds, sendo os quadrinhos Estadunidenses, uma mídia serial, cíclica e autofágica… nenhuma história acaba realmente. Mas aqui na grande maioria das vezes, os autores e roteiristas seguintes tentaram ser respeitosos com esse grande épico no que diz respeito à Trigon. O próprio Wolfman, que ainda continuou no título por mais dez anos, com outros artistas, aproveitou das sementes dessa saga para trazer de volta as almas de Azarath, agora corrompidas pelo próprio mal que anteriormente eles acharam que destruíram, também trouxe uma Ravena agora maligna e outras coisinhas mais, questionáveis ou não.

Mas o chifrudo vermelho de quatro olhos, continuou enterrado. Quando Geoff Johns assumiu a franquia dos Titãs ele trouxe brevemente o imenso esqueleto de Trigon de volta a vida por um leve instante – apenas para demonstrar o poder do novo Irmão Sangue – mas o malvadão de verdade, continuou morto. Já nos Novos 52, Trigon apareceu novamente “pela primeira vez” numa edição do Vingador Fantasma, mas isso são outros quinhentos – vamos ignorar totalmente aqui. (como quase tudo, exceto o título do Aquaman e dos Cavaleiros Demoníacos, nos Novos 52)

O que realmente importa nessa grande narrativa, é que propriamente o verdadeiro Trigon apareceu de fato em duas importantes edições da revista dos Novos Titãs, nunca foi derrotado de fato pelos heróis e nunca foi realmente trazido de volta. Ficando assim estabelecido que foi preciso um milagre muito além das capacidades de qualquer grande herói da DC para derrotar sua ameaça.

Acredito que a verdadeira intenção de Wolfman e Pérez para o Exterminador seria a mesma, o vilão teria um início, meio e fim em sua narrativa. Ele foi introduzido à revista no segundo número, quando assume o contrato – ao qual inicialmente era de seu filho, o Devastador – antes de falhar e morrer. Slade teria que capturar e entregar nossos heróis para a C.O.L.M.E.I.A.

Slade e os Titãs se enfrentaram algumas vezes por quatro anos, exatamente igual ao que aconteceu com Trigon, nunca sendo de fato derrotado pela equipe, mas ao contrário do pai de Ravena, seu papel na DC nunca foi suficientemente impactante em suas intenções, provocando diversos retornos para que houvesse conclusão na sua missão.

O ponto alto da narrativa do Exterminador foi indubitavelmente o arco: O Contrato de Judas, onde ele manipula (ou é manipulado) pela anti-heroína Terra, que entrega os Titãs para a COLMEIA e sem nenhum peso na consciência dá as costas e parte com a certeza de um trabalho bem feito… até que tudo dá errado para ele novamente.

Seu consequente julgamento pelas autoridades é o prelúdio para o fim de sua épica narrativa. Com o jovem Titã Mutano partindo para matá-lo em seguida. Slade apenas diz: “vá em frente, faça o que tem que fazer”, mas então a edição acaba com ambos conversando e acertando suas diferenças, em uma das mais tocantes edições da equipe.

Esse deveria e poderia ser o fim do épico arco do Exterminador. Ao que parece até foi, salvo uma aparição especial durante a saga Crise nas Infinitas Terras, mas Wolfman o trouxe de volta quatro anos depois durante o arco “Titãs Caçados” e em seguida ele foi protagonista de um  título solo…

Parte de mim gosta da ideia de Slade Wilson fechando seu arco de histórias de forma épica também e entrando para a história editorial da equipe com dignidade, mas por outro lado entendo porque faz muito sentido o Exterminador fazer parte do grande universo DC, justamente por ele ser também um grande personagem, mas ao invés de Trigon, nunca colocar a própria realidade em perigo eminente. E o editorial da DC nunca deixaria de espremer essa “laranja dourada” até a exaustão, enquanto desse suco/lucro.

Nos tempos atuais, os quadrinhos de super-heróis estão carentes de um grande antagonista que possa ser interessante como ameaça a esse universo compartilhado. Essa é uma mídia que devora e necessita constantemente de ser alimentada com a criação de grandes antagonistas, mas histórias como as que Wolfman e Perez fizeram com Trigon, provam que ameaças com tempo definido de vida podem existir, funcionar e serem maravilhosas para além da gula de editores e indústria em capitanear em cima de vendas de revistas. E que quando essas narrativas são executadas de forma certa a ficção consegue ser tão fantástica quanto qualquer realidade.

Referências Bibliográficas:

IZHAR, Adriano et all. Revista Mundo dos Super-Heróis #12, 2008, São Paulo: Editora Europa. pp. 22 a 37

OPPERMANN, Álvaro. Cátaros: hereges graças a Deus. Super Interessante, 2008, Disponível em:< https://super.abril.com.br/historia/cataros-hereges-gracas-a-deus/ > Acesso em: 01, 08, 2021.

THE ORIGIN OF THE CLASSIC NEW TEEN TITANS: Marv Wolfman & George Pérez Era, Titans Tower , 2011, Disponível em: <https://web.archive.org/web/20100729170723/http://www.titanstower.com/source/libntt/00libntt.html> Acesso em: 01, 08, 2021.

IMAGENS:

“Shades of Gray!” Tales of the Teen Titans Vol 1 #55 July, 1985

“Last Kill!” New Teen Titans Vol 1 #6 April, 1981

“Shades of Gray!” Tales of the Teen Titans Vol 1 #55 July, 1985

“Shadows in the Dark!” Tales of the Teen Titans Vol 1 #60 December, 1985

“The Search for Raven” Tales of the Teen Titans Vol 1 #61 January, 1986

“Souls as White as Heaven” Tales of the Teen Titans Vol 1 #62 February, 1986

“Torment!” New Teen Titans Vol 2 #4January, 1985

“Torment” Tales of the Teen Titans Vol 1 #63 March, 1986

“The Terror of Trigon” Tales of the Teen Titans Vol 1 #64 April, 1986

The New Teen Titans: The Terror of Trigon – TPB August,1984/ February, 1985

7 comentários sobre “Artigo Especial: NOVOS TITÃS – COMO CONSTRUIR UM BOM VILÃO!

  1. Grande resenha um épico construído ao passar dos anos, grande dupla que construiu um grande grupo, me sinto como parte da família. Cresci junto com eles me sinto um titã também.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ter o Victor Venerável entre nós é o melhor presente possível!

      Starman, não deixe de acompanhar todos os artigos especiais em comemoração aos 10 anos do Santuário!

      Abraços!

      Curtir

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