RESENHA: MISSA DA MEIA-NOITE

Por Henry Garrit

Ao ser solto após quatro anos de detenção por provocar a morte de uma jovem ao dirigir embriagado, Riley Flynn (Zach Gilford) retorna ao lar, Crockett, uma remota e decadente Ilha nos EUA, com população de cerca de uma centena de habitantes, reduzida ainda mais por um vazamento de óleo que limitou sua principal atividade, a pesca. Neste cenário sombrio e exaurido de esperança, Riley aos poucos tenta se reconectar com sua comunidade e família, e descobre que o ponto focal do lugar ainda é a igreja, local para onde a maioria ainda converge, não necessariamente com missas lotadas, mas através da fé compartilhada por todos, ou quase, uma vez que o recém chegado Xerife Hassan (Rahul Kohli) e seu filho professam de outro credo como muçulmanos e mesmo Riley, que após os trágicos eventos que o levaram a prisão se tornou ateu. Mas todo esse clima cinza de desesperança muda com a chegada de um novo sacerdote, o Padre Paul, (Hamish Linklater) que restaura a fé de sua congregação não apenas pela energia e carisma mas através de misteriosos acontecimentos considerados como milagrosos que surpreendem a todos. No entanto, eventos bizarros também começam a ocorrer, como a morte de animais e aparições de vultos sinistros pelas ruas escuras da vila, um mau agouro de uma ameaça que está à espreita, aguardando o momento certo de atacar. Benção ou maldição? O que está acontecendo na Ilha Crockett ?

De Mike Flanagan, mesmo criador e diretor das séries A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly e dos filmes Hush – A Morte Ouve e Doutor Sono, por exemplo,  a minissérie Missa da Meia-Noite (Midnight Mass), disponível na Netflix, é baseada (vagamente) no livro homônimo de F. Paul Wilson e nos apresenta um terror sutil, diferente do que normalmente vemos em obras do gênero, com situações grotescas e sustos aleatórios. Nem por isso a história deixa de ter seus elementos sinistros, atingindo-nos não necessariamente através do medo, mas usando de outras emoções ao falar de frustrações, amores perdidos, chances desperdiçadas até mesmo depressão, ainda que não seja o foco principal. Outro debate tratado de forma inteligente dentro de seu bem construído roteiro é a religião, através do retrato de pontos diversos, dentre os quais os cristãos, muçulmanos, ateus e uma pincelada na perspectiva de uma pessoa LGBTQIA+.  Enquanto a história vai ganhando forma para chegar ao ápice, somos presenteados com questões pertinentes de alguns personagens, com suas histórias pessoais, os motivos pelos quais chegaram, saíram e retornaram para a remota ilha. Os diálogos, inclusive, são extremamente cativantes, sem tempo para histórias paralelas que não servem à trama, tudo se conecta, fazendo com que pequenos comentários aparentemente inocentes nos primeiros episódios ganhem enorme proporção e significado quando certas verdades vêm a tona, reforçando o quanto a história foi bem estruturada, preocupada em manter sua coesão acima de ser apenas mais um enredo com um monstro assustador. Muitas sutilezas são deixadas no ar sem a necessidade de ficar explicando todos os meandros ao telespectador, assim os mais atentos terão sua recompensa ao ligar alguns pontos da vida dos personagens. Ainda assim, não é preciso analisar cada cena com uma lupa, pois a história funciona e avança de forma natural, saciando nossa sede por mais respostas.

Tratar de temas como religião sempre gera controvérsia, ainda mais quando o fanatismo é mostrado em sua plenitude, onde verdadeiros vampiros emocionais atuam no inconsciente dos fiéis, mas a série se mostra isenta ao mostrar todas as facetas dessa temática, não reduzindo a religião apenas a uma seita de fanáticos, mas mostrando também aqueles que de fato vivem sua fé (ou ausência dela) com amor e respeito ao próximo, seja no islamismo, na igreja católica, ou entre os ateus.

O ponto de virada sobrenatural, é claro, finaliza qualquer debate mais profundo que poderia ocorrer na realidade, mas dentro de sua proposta ficcional, consegue ser bem sucedida em conciliar os temas. A narrativa da série, como dito, acontece de forma sutil, e isso intensifica determinados momentos, criando uma verdadeira montanha-russa emocional em quem assiste. Se não exatamente pelo terror de forma tradicional (que antes que se perguntem, fiquem tranquilos pois está lá), mais pelas surpreendentes escolhas dos personagens, fazendo com que a história se torne imprevisível sob seu aspecto humano, ainda que no que diz respeito a sua característica sobrenatural, não seja difícil matar a charada sobre o que está ocorrendo naquela ilha.

Ainda falando sobre narrativa, achei brilhante, por exemplo, a escolha da direção ao contar sob a forma de flashbacks as passagens do Padre Paul em Jerusalém – explicando enfim a fonte de todo o mal que se abatera no lugar, mostrando-o num confessionário, tentando redimir-se com Deus, mas é quase como se estivesse conversando com o público. E entre uma e outra cena dessa passagem, temos um quadro de madeira na parede que muda de acordo com o que é contado.

Missa da Meia-Noite é uma bela história de terror – e sim, ela conseguiu provar que tal coisa é possível –  com momentos que beiram a poesia, reflexões sobre fé e segundas chances, unidos a uma trilha sonora capaz de emocionar até o mais frio telespectador, além de é claro, violência, morte e monstros assustadores.

Uma agradável surpresa para quem gosta de narrativas bem construídas, personagens cativantes e sangue jorrando pelas paredes.

4 comentários sobre “RESENHA: MISSA DA MEIA-NOITE

  1. Parabéns pela resenha. Missa da Meia Noite me surpreendeu muito. Há quem mesmo hoje em dia com tanto material ótimo, bom, regular, ruim…na Internet e no streaming, dizer que está entediado??

    Curtido por 1 pessoa

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