Resenha: Round 6 (Squid Game)

Por Henry Garrit

Acompanhamos a história de Seong Gi-Hun, (Lee Jung-jae) desempregado, divorciado, pai de uma menina, morando com a mãe idosa, sem nenhum dinheiro e até o pescoço de dívidas. Desacreditado, ele é adepto a jogos de azar e não raro precisa escapar da violência de agiotas, até que um desconhecido no metrô lhe propõe um jogo que termina com um cartão de visitas misterioso que o leva a uma espécie de arena onde ele conhece outras pessoas na mesma situação. Logo as regras são apresentadas na forma de competições que acumulam um valioso prêmio em dinheiro. Entusiasmados com a possibilidade de “mudar de vida”, eles aceitam o desafio e jogos começam. Mas os problemas também.

A grande questão abordada pela série sul-coreana Round 6 (Ou Squid Game) é a desigualdade social e a supervalorização dos bens materiais acima de vidas humanas, um triste retrato da nossa realidade levado ao extremo e transformado num “coliseu moderno”, onde o sofrimento dos menos favorecidos financeiramente é o entretenimento dos mais abastados. Não bastasse tal barbárie, os jogos tem um detalhe que os participantes descobrem da pior forma; Ser eliminado no jogo funciona no sentido literal, ou seja, os perdedores são mortos, acumulando o valor do prêmio para os que que conseguem vencer e passar para a etapa seguinte, o que gera conflitos internos entre eles e dilemas morais, onde vínculos são criados e desfeitos com a mesma facilidade e o objetivo final passa a ser perseguido de forma animalesca, num processo de desumanização que os reduz a seres cujo valor é medido tão somente por suas conquistas financeiras, como se isso, e não seus sentimentos e relações interpessoais fossem o que realmente importasse.

É claro que o processo não é instantâneo, mas conforme o jogo avança tanto em nível de dificuldade como em brutalidade, os participantes vão pouco a pouco se despindo de seus conceitos morais, embora fique claro que muitos deles já chegaram lá sem tais preocupações e mesmo os que ainda tentam se agarrar a algum resquício de humanidade, acaba por sucumbir em algum momento ou outro, apresentando personagens como pessoas complexas em camadas, ora tendo atitudes altruístas mesmo em meio a uma competição que pode custar suas vidas, ora sendo absurdamente egoístas, capazes desde pequenas trapaças ao assassinato frio.

Grande mérito da série é explorar essas camadas, não apenas entre os participantes dos jogos, mas também em meio aos funcionários mascarados que trabalham para que tudo funcione. O programa nos lembra que atrás de cada máscara (a qual são terminantemente proibidos de retirar e revelar suas identidades tendo como punição a morte) são também humanos e criam seus próprios esquemas dentro do jogo, o que acaba por render subtramas, que junto as histórias pessoais de alguns personagens ou pela ação de um policial infiltrado, ampliam as possibilidades narrativas, fazendo com que a série não seja apenas sobre um jogo com cobaias humanas em busca de um grande prêmio.

A comparação com conceitos já vistos em produções como “Jogos Vorazes” ou a série brasileira “3%“, apesar de guardar semelhanças, acaba no momento em que fica estabelecido que os jogadores não foram obrigados a estar ali, apenas aceitaram um convite. Claro, existe o “pequeno” detalhe de não saberem que as eliminações seriam reais, mas o jogo ainda tem uma cláusula que diz que se a maioria decidir, este é encerrado e todos podem voltar para suas casas, o que de fato ocorre em alguns casos, mas voltar para onde mesmo? Uma sociedade movida pelo capitalismo onde o valor do indivíduo é medido pela sua conta bancária, onde a especulação financeira e os juros se mostram tão mortíferos quanto qualquer jogo insano criado por bilionários entediados, que leva as pessoas a perder tudo, principalmente o respeito, caindo em desgraça onde são tratadas como lixo, sem condições dignas de sobrevivência até perecer como mais uma triste estatística… Então não é surpresa que a maioria retorna ao jogo quando tem a oportunidade, desta vez cientes de todas as consequências.

Apesar do exagero gráfico (inegavelmente um dos maiores chamarizes da série) e do extremismo retratado em determinadas situações, é sem dúvida uma contundente crítica à nossa realidade e um convite a reflexão: O quão longe você iria para garantir sua instabilidade financeira? Seria possível extinguir o abismo social entre as classes? Qual é o preço da sua alma?

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