RESENHA: SHADE, A GAROTA MUTÁVEL – PEQUENA FUGITIVA

Por Henry Garrit

Loma “Shade” do planeta Meta sempre se sentiu tão atraída pela cultura da Terra quanto deslocada em seu próprio mundo, sendo uma “aviária” adotada por “metáquios” nativos, rebelde e em busca de algo que a preenchesse, até que conseguiu os meios de roubar o Traje L de um museu e transferir sua consciência para o corpo de uma garota terráquea em coma, seguindo assim os passos de seu ídolo, o poeta Rac Shade que experimentou uma semelhante viagem através do âmago da loucura anos antes, passando um longo período no planetinha azul.

Embora já tenhamos acompanhado todo esse processo no volume anterior, aqui temos um detalhamento de todos esses os passos e mais sobre o passado de Loma, contado através de flashbacks que se conectam a sua atual situação na Terra, servindo de certo modo, além de nos revelar passagens inéditas de sua trajetória, como um ponto de virada, onde ela precisa reavaliar suas prioridades, voltando o foco para o seu objetivo ao vir ao nosso planeta, desbravar a Terra ou continuar vivendo como a adolescente problemática cujo corpo agora ela ocupa, em grande parte motivada pelos vínculos humanos que fez, porém o que descobrimos sobre ela é que não é de sua natureza fincar raízes em lugar algum, tendo a necessidade de “migrar”… Apesar de ela parecer estar pensando como uma humana agora que veste essa nova pele, (o mesmo teria ocorrido com Rac Shade?) eventos imprevisíveis acabam mudando a direção das coisas, levando Loma a apressar sua decisão.

Seguindo seu instinto de aventura, e já não se preocupando com a loucura – não apenas de seus atos – mas a própria essência da loucura que vaza pelo seu traje e se espalha como vírus – afinal, se tem algo que aprendemos com essa história é que a loucura é contagiosa – causando distúrbios ora positivos, como rejuvenescer temporariamente antigos membros de uma velha banda de rock e seus fãs, ora perdendo o controle, causando mortes acidentais e chamando a atenção de Mellu em Meta, que consegue obter sua localização e enviar emissários em seu encalço. Passando de Gotham a Hollywood, vemos todo o processo de metamorfose da personagem que não se resume apenas ao fato dela ser uma alienígena ocupando o corpo de uma garota humana, mas sua transformação interna que lhe faz compreender melhor aquilo que seu antecessor, Rac Shade, parece ter dominado – não a loucura – mas a si mesmo.

O que vemos então é a mudança da perspectiva de uma jovem – alien ou não – que deslumbrada pelos poemas de Rac e pelo seu seriado humano favorito A Vida com Mel, descobre outro nível de profundidade em seus próprios sentimentos, abrindo-se para o amor e a dor de ser (quase) humana.

O roteiro de Cecil Castellucci, bem acompanhado da arte de Marley Zarcone, Ande Parks e Marguerite Sauvage, mantém sua identidade e fidelidade ao que fora proposto para essa nova encarnação da criação de Steve Ditko, que ainda que referencie a versão de Peter Milligan, o faz na forma de pequenas homenagens, por exemplo, nomeando uma rua como Bachalo, (Como em Chris Bachalo, artista parceiro de Milligan), mas o teor é muito diferente e mira um publico mais jovem, o que é irônico, porque o Shade de Milligan estreou o selo Vertigo justamente mirando um publico adulto.

Que loucura não?

Uma curiosidade aleatória: Quando Shade encontra a agora idosa atriz de sua serie de tevê favorita “A Vida com Mel”, esta lhe menciona o velho jargão: Finja até conseguir. Ela está num lar de repouso onde também se encontram outros artistas das antigas, incluindo – como é mencionado – uma certa Rita Farr. Conforme vimos no episódio Dada Patrol da série de tevê da Patrulha do Destino, Rita Farr diz exatamente a mesma coisa para a Madame Rouge: Finja até conseguir. Sabemos que a Patrulha do Destino e Shade estão abrigadas sob o mesmo selo da DC Comics, o YOUNG ANIMAL, porém alguns anos separam uma citação da outra, por isso essa curiosidade foi tão aleatória.

Em tempo: Todos os personagens do selo se encontrarão num grande crossover… Alguma coisa como… AS GUERRAS LÁCTEAS! Aguardem a resenha em breve!

Shade, A Garota Mutável provocou uma pequena revolução por onde passou com seus arroubos de loucura, e de modo imprevisível, arrancou os personagens de suas zonas de conforto, trouxe velhos sentimentos à tona e proporcionou resolução para antigas pendências. Agora ela parece ter conseguido alinhamento entre corpo e mente – dentro do possível – e está pronta para encarar novos desafios.

Algo me diz que seu antecessor está bem orgulhoso.

SHADE, A GAROTA MUTÁVEL – PEQUENA FUGITIVA foi publicado no Brasil pela Panini em um encadernado que reúne as edições 7 a 12 de Shade, The Changing Girl.

Aproveite e leia nossas resenhas dos títulos do selo DC´S YOUNG ANIMAL:

MADRE PÂNICO – TRABALHO EM ANDAMENTO

SHADE, A GAROTA MUTÁVEL – É FÁCIL SER TERRÁQUEA

PATRULHA DO DESTINO – PEDAÇO POR PEDAÇO

MADRE PÂNICO – SOB A PELE

SHADE, A GAROTA MUTÁVEL – PEQUENA FUGITIVA.

PATRULHA DO DESTINO – NADA

GUERRAS LÁCTEAS

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